como enterrar nuvens

Franziu a testa. Era já hora de falar do que ninguém vê. Era hora já de dizer sobre aquilo que não pode ser escrito na pedra, nem escondido com a luz apagada como se o mundo ao redor é que sumisse e não o quarto quase vazio.

Aquele canto escondido do mundo era inventado. Graças aos braços, às pernas, às costas, pêlos – casas do cheiro que ela trazia. Era uma trégua da chuva lá fora, era uma bandeira de paz à febre que tomava conta do ar naqueles dias. Ela sabia?

Fez um esforço muito grande pra lembrar o que o pôs de novo em paz. Se foi a cortina mal cosida pelas mãos da senhora gorda poucos dentes que lhe deu um desconto que saiu mais caro que um preço de loja, se a receita que lhe passaram sobre como fazer um sanduíche sem pão sem recheio sem sanduíche, se o poema ruim falando do outono que era só lenda nessas terras… Não sabia.

Era hora já de desesconder a agonia prenhe de futuro empalhado que lhe comia a mão, lhe roía as unhas e as coragens de comprar as coisas de comer de cada dia. Ele sabia.

Do fardo de ser quem era, o quinhão era um só. Colocava drama nos modos de dizer as coisas já que as coisas elas mesmas não seriam nunca ditas. Tão distantes do mundo das pessoas e seus dizeres, as coisas. Tão ocupadas em não ser. Nasciam só da boca de gente ocupada em inventar graça pra colocar no tempo, as coisas. Ele sabia?

Passava mais de um minuto já desde que ele dissera a última coisa, e ela não esboçava ainda reação. Como quem brinca e se perde nos momentos de silêncio deles dois, como quem não sofre por descansar as coisas de serem chamadas, as histórias de serem contadas, as mentiras de ganharem outros nomes, ela colocava os olhos em não-lugares que ele queria descobrir. E ficar por lá. Ela sabia.

“Fala”, ela disse. “Gosto quando tu fala”. Era a voz dela que o encontrava num lugar improvável, ele voltou a si e sorriram juntos. Enterrou a nuvem escura num abraço. Era o reino do silêncio caindo de pé, quase grato por deixar de ser.

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