as palavras do adeus mudo

depois de alguns meses frios e secos, chovia. o som invadiu o quarto e atingiu em cheio a saia longa e estampada com flores coloridas, com o vermelho vibrando no verde. saia que não rodava mais, não descia do cós aos tornozelos; antes girava no samba, agora era só bolero.

apesar da chuva, a rotina persistia. o cheiro de café já invadia os poros após o tintilar de panelas. no centro da mesa, uma flor qualquer pra ela, pousava num jarro tímido, ele sabia que era uma composta. não fazia diferença.

pela janela, cães rasgavam o lixo colocado fora de hora por algum vizinho mal-educado. além, o riso e gritos das crianças se faziam ouvir, donas das únicas vozes a atravessar o som da chuva. sombrio, lembrou que não lembrava o som da voz dela e num esforço desumano de lembrar, perdeu o apetite e levantou sem tocar na comida.
Pensou em pedir perdão, mas no reino do silêncio, não sabia quais palavras usar.

saiu na chuva forte, pingos a molhar o rosto. não deu tempo de ouvir o adeus murmurado, não viu que não era a única face molhada.

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