A fuga

Cortou o mato que o cortava, recíprocos, ambos insensíveis. Não se sabe se era noite de lua cheia ou nova, na fuga não deu tempo de reparar, mas para fins da história de horror, era cheia, amarela. Correu por muito tempo, não se sabe se horas, dias ou meses. Se deu em terra de ninguém seu e assim se fez até o dia que amarrou a corda no umbuzeiro e laçou o pescoço. Foi achado com os olhos comidos pelo carcará e alguns umbus maduros caídos.

Tonho Doido, não era sua graça, mas foi o rótulo dado pelo povo do vilarejo. Tinha a fala agitada e olhos de vidros que pareciam emoldurar o horror do passado e como mote a afirmação: você me conhece?

Nascido em quatro, carece dizer se era mais velho ou mais novo ou do meio. Pai não tinha mais, um pé cortado pela enxada na labuta da roça foi o suficiente pro tétano o vencer.

Era o que restara da noite que a mãe aluou.

O primeiro teve a cabeça rachada com um bambu e o sangue bebido numa caneca de revestida de porcelana branca, descascada pelas lavagens tantas. Os outros dois foram afogados na cisterna, para que os gritos não existissem. Terminada a empreita furiosa, sentou ao batente e acendeu uma vela e um cigarro. Fez o sinal da cruz, uma prece e apertou o terço contra o peito. Passou a peixeira amolada na garganta. Uma poça de sangue não se formou, o chão seco sorveu. Nos olhos defuntos, ninguém percebeu nenhum arrependimento, estes o carcará não quis comer.

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