De escombro a pessoa

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Desistiu de contar o tempo. Era escombro. Não podia empilhar mais esse peso nos dias curtos. E muito longos. Era escombro. Trancado em si mesmo, não disse uma palavra desde que conheceu o lado de dentro. Muros amontoando gente cujas histórias ele inventava. Era escombro. Fez de tudo. Trabalhou, professou uma fé que não havia, fingiu não ver gente virando carga em silêncio por não cumprir a lei das grades, inventou pra si que era sozinho, que não tinha ninguém. Se inventava todo dia diferente pra suportar não ser. Ali ou do lado de fora, esquecido das coisas de gente que vive.

Nunca conseguiu esquecer dele. Seria dor demais. Mal teve tempo de sentir seu peso nas mãos, mal teve tempo de comparar os olhos, de dizer que o amava tanto que não haveria tempo no tempo do mundo capaz de caber tanto dizer. Era escombro.

De tanto fazer de conta que aquilo era pra sempre, se aproximou sem aviso o dia de ir embora. Era escombro. E medo. Era cedo. Não haveria chave que o livrasse do lado de dentro. Era seguro. Apesar do terror ao redor nunca descansar. Era seguro ali.

O tempo finalmente se impôs. Último dia de visitas sem visitas. Última semana. A tortura se impôs sem cerimônia. Mais um, menos um. Do piscar de olhos das horas de sol ao infinito da madrugada ganhou companhia nova: um bolo crescendo no peito. Quase doía. Pra escândalo de outros condenados menores, quebrou todos os hábitos, e ensaiava o encontro com ele, escrevendo pedidos de desculpa sem tamanho.Já tinha um maço debaixo do colchão. Aprendia todo dia uma palavra nova pra acrescentar no perdão pela ausência, pela vergonha, por não merecer. Era agonia.

Não dormia havia alguns dias. Cochilos sobressaltados impediam um colapso. Amanheceu como quem ia à forca. A sentença: ser posto em liberdade. Grade atrás de grade aberta sem burocracia. Algo podia dar errado. Mais de uma vez as pernas travaram, mas não houve truculência. O bolo no peito ameaçava derrubar aquelas paredes. O chamaram pelo nome: Antônio. Podem tê-lo feito antes, mas agora ele escutou. Dentro e fora estavam agora misturados. E ele não conseguia mais fazer de conta as vidas que inventou. Era agonia.

Um abraço. Outra vez ouviu seu nome: Antônio. Outra vez as pernas ameaçaram o chão. Ela chorava em silêncio. Ele tremia, suava, não dizia uma palavra. Como não disse nos 7 anos do lado de dentro. Era o lado de fora. E era escombro.

A casa ganhou dois andares, e a porta estreitou em seus olhos fundos, quietos. O bolo no peito agora pulava numa cama elástica e golpeava por dentro como se fosse fugir. Ele não o perdoaria. Não merecia perdão. Era agonia, era medo, não havia como escapar. Tirou os papéis escritos com todas as formas de pedir perdão disponíveis do saco suado.

– Ele tá lá em cima te esperando.

Ela disse, olhos inchados, pondo a chave em cima da mesa. As pernas dele ganharam raízes. A mão grande apertou tão forte o papel que fosse coisa de quebrar teria deixado de ser coisa e teria virado pedaço. Era medo, muito medo. E caco.

Subiu as escadas como quem ia pro abate. E o bolo no peito alcançando a garganta, forçando passagem. Abriu a última porta. O vento assobiava forte. Antônio – agora até se lembrava que tinha nome – ouvia os papéis amassados na mão, e o som de outro papel mais fino por ali denunciado pelo vento forte quase ventania. Procurava o guri, mas foi encontrado antes.

– Pai?

O bolo que ameaçava a garganta escorreu no rosto, antes que visse o menino. Depois de 7 anos, Antônio voltou a falar:

– Filho.

Criou coragem e ameaçou um abraço, mas o menino interrompeu.

– Solta pipa comigo?

O perdão enrolado no carretel de linha. Era livre.

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