Sangue nos olhos

Sussurravam baixinho para que o mundo não os escutasse. Eram sempre um segredo construído à dois. A brisa morna daquelas tardes curtas deixava gosto de algo sempre a faltar. O tempo era breve.

– Tu volta?

– Sempre estou voltando, não?

– Sempre acho que é a última.

– Eu também, mas acabo sempre aqui.

Penteou-se em meio a um sorriso resignado que era só metade do seu. As mãos ligeiras tentando arrumar o cabelo, a cabeça cansada a pender para o lado, o olhar perdido, nem ela sabia onde.

– Gosto de tu assim…

– Ahn?! Como? O que disse?

– Que gosto de tu assim. Olhando pro nada, sem pressa no rosto, quase a mesma menina que conheci.

– Tu não era casado…

– Tu sabe que, se pudesse, eu casava com tu.

– Casava não…

– Casava.

– Eu nunca quis casar com tu. Sabia que não podia. Mas precisava casar com outra?

– A minha mãe. Já disse! Milhões de vezes eu disse! A minha mãe que pressionou.

– Sempre a sua mãe! Sua mãe é desculpa pra tudo!

– Não é bem assim. Sabe que a gente não pode… Logo iriam desconfiar… Mas tu! Tu também não precisava ter virado puta!

– Pra você é fácil falar. Bem nascido, sua mãe não aceitava mas não jogou pra fora de casa como fez meu pai.

– E não tinha outra coisa pra fazer? Tinha que ter virado puta? Já falei que monto casa pra tu, te dou do bom e do melhor pra não te ver com outro homem…

– Já disse que não! Gosto de ter meu dinheiro, não quero homem nenhum dono de mim não. E outra, que vida é essa de te esperar vir quando pode? Viver de amante é que não vou!

– Tudo bem. Não vamos mais discutir isso. Mas me diga, é verdade que tu cortou outro cliente?

– Cortei sim. Não queria me pagar, o desgraçado! Ainda ameaçou me bater. Não deu outra, cortei a cara dele com a navalha pra ele perceber com quem tava  lidando.

– Santinha, não tem medo? Faz isso e depois? Vai que um resolve se vingar…

– Vinga nada! Todo mundo aqui sabe que eu tenho sangue nos olhos! Tá pra nascer homem pra me enfrentar. E não me chama de santa pra não ofender a que tá no céu, que é quem me protege.

Ele riu quando ela apontou pra imagem. Terminara de se arrumar, só faltava o perfume. Duas borrifadas do inconfundível cheiro de flor. Navalha na bolsa, despediram-se no corredor, na porta alguém podia ver e não seria bom pra reputação de homem de família, de classe e nome ser visto com a tal. Ele entrou no carro, ela seguiu descendo a ladeira. Quem a visse assim de longe juraria que era mesmo mulher. E ela era, mesmo com a natureza gritando-lhe entre as pernas que não, ela era mulher. Talvez mais mulher que as outras.

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6 comentários sobre “Sangue nos olhos

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