Barco à vela numa manhã sem sopro

Querida,

Suponho que, após o novo exame, nós dois sabemos o pouco que me sobra de vida. O câncer domou meu organismo e começou a preparar minha cova. Escrevo para o caso de você não chegar em boa hora dos EUA. Inclusive, quero conhecer depressa seus novos achados arqueológicos. Os homens de branco não me deram nem uma semana, compreende? Há eras não me deixam encher a cara em casa e ando cheio de saudade; precisando daquele abraço que só você sabe dar. Engraçado é que seu abraço sempre me embebeda. Foram várias as vezes em que nele meu corpo se demorou, parado como um barco à vela numa manhã sem sopro, no meio do oceano, deslumbrado. Seu cheiro bom de ar precedendo uma chuvarada de verão, o cabelo escuro, cheio, escapando sereno do prendedor e roçando o meu pescoço, sua boca descerrando em sussurros quentes, ora suaves, engordando devaneios, ora pesados. Estes quando carecia de um ombro amigo – o que nunca veio a ser um problema. Vivíamos em reciprocidade. Tudo parava, assim. Tudo em nós desordenado. Devorávamos queixas, medos e remoinhos. Seu abismo era o espaço de queda para a minha consciência e vice-versa. Sabíamos que não éramos apenas meros amigos. Também sabíamos de mais coisas, mas nenhuma era enorme como essa. Agora, rememorando nossos 30 anos de convivência, depois de bem rever meus caminhos, enxergo os camaradas de sempre que passaram a ser de nunca. Percebo o quão além chegamos, nessa caminhada. Lembro de onde começamos, da nossa meninice roxa. Lembro da vez em que escalamos um morro colosso e descemos dele no mesmo segundo. Eu nunca havia corrido daquele modo, sem o menor medo da ruína. Rimos um bocado e choramos porque rimos. E soube que não é preciso morrer para saborear o sorriso de Deus. E demos um abraço bom. Engraçado é que seu abraço sempre me embebedou. Trêmulo, me dobrava que nem a corda de um violão. E quebrava, agudo demais. E eram essas as piores memórias. Raras e alegres, despedaçadoras, brasas nas mãos. Tudo ocorria nesse abraço…

Anúncios

2 comentários sobre “Barco à vela numa manhã sem sopro

  1. Interessante o poder que tem a leitura de um bom texto. Nos leva a viajar pela situação apresentada de modo que estivéssemos vivendo ou ao menos vendo tal acontecimento… Viajei no texto, Parabéns Vityn..

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s