olhos de dizer

Sede. Ela chegou numa manhã chuvosa de sábado. Tinha sede. Com cheiro de fim de festa e pouca disposição para meias palavras, “bom dia” e outras formalidades que a comiam os pés como formigas desde a mais dura infância que alguém jamais imaginou. Eu só precisava de pouca luz e nenhum som ao redor, mas ela estava ali quieta dois degraus abaixo de mim com um pedaço de plástico enfeitando a cabeça – já que da chuva grossa não abrigava –, dando outra roupa ao barulho da chuva, esse melhor feitiço de dar sono a quem não tem.

– Não vou te dizer nada antes de um café.

Ela disse já entrando. Os olhos dela pediram licença enquanto empurrou meu corpo que por pouco não se deixou cair e dormir ali mesmo, porta aberta e chuva de fundo. Mas não. Ela não matava a sede com água. Inventou isso de só beber água depois de um café forte. Os olhos dela pediram licença enquanto me empurrou tão de leve que parecia que uma borboleta me atropelava com a força de um guindaste. Eu não disse nada. As desculpas dela pela rudeza foram sinceras, ligeiras, quase sem querer. Gostei disso. Gostei tanto que não fosse o gosto amargo da noite em claro e nenhuma comida, não fosse o filme ruim com final pior, não fossem os vizinhos tão felizes que me deprimiram, não fosse por tudo isso eu teria até dado um riso de canto de boca. Mas me detive ali, porta aberta, os pingos comendo as pontas dos meus pés de unhas grandes, e um frio que me lembrava a cama que eu havia deixado para trás segundos antes, sem saber o que me aguardava. E olhei a chuva lá fora quase saindo para morrer de coragem e banho de chuva, essa coisa que todo mundo ama tomar, mas nunca usa. Foi tempo suficiente para ela pigarrear e imediatamente levar o dedo médio ao ouvido e coçar a garganta com aqueles sons afirmando a própria presença sem constrangimento. Era o prenúncio de uma outra doença que nunca viria, preferia as ameaças. Eu olhei por cima do ombro esquerdo ainda com a mão na porta. Ela me olhou de volta e disse sem dizer, como havia prometido, não antes de um café amargo e forte: “ainda aí?”, os olhos de pressa.

Procurei em vão os filtros de papel. Ela parada ali sem dizer nada não me incomodava. Mas não podia aceitar que no dia em que faria café para dois eu não tinha uma porcaria de um filtro de papel. Me restou o velho, bom, sempre ali, filtro de pano guardado na geladeira vazia. Ela tinha sede e descansava o queixo sobre o punho fechado. A maestria no uso do filtro de pano eu quis aprender com uma tia que não era tia, um desses parentes que a gente vê duas vezes na vida, dessa gente que não se demora mais que hora na sua existência, mas te ensina algo que a faz presente para sempre. [Ainda lembro do esmalte roxo descascando de dentro pra fora e do cheiro de mofo e naftalina da casa dela. E do sorriso sem esforço sempre que me olhava. E do quadro com o retrato – “é um retrato e não uma foto”, ela me disse – que insistiu ser ela na juventude. Eu não passava de um moleque sem ainda crescer pelos, mas já podia dizer quando alguém mentia: o retrato não era dela, mas enquadrava um amor próprio infinito de sobra, tamanha a felicidade de se apontar linda na parede.] Mas ela pigarreou outra vez. Um som estranho, longo, deixando clara a intenção de fazer notar a impaciência. Era um acordo raso esse que tivemos: ela fingia que fazia sem querer, eu fingia que estava concentrado no café.

– Essa xícara esquenta demais…

Mas ela já segurava o café com as duas mãos e me levantou um olhar de desdém que inundou a sala de “minhas mãos são muito mais finas que as dela”. A água escorria dela ao chão, e a maquiagem um choro preto guiando rosto abaixo por pouco não se misturou ao café. Forte e amargo. Ela levantou os olhos da xícara. Foi o que me fez agarrar o único copo limpo e derrubar mais café do que eu havia bebido nas duas últimas semanas. Tudo o que eu não precisava era de café. Forte, amargo e as borras que escaparam pelos lados do filtro, que eu não era a sombra da habilidade da minha tia [Vânia, Ioná, Adélia, algum desses nomes de tia que a gente nunca teve].

Me apressei para conferir sentido ao silêncio e levei num golpe o copo de alumínio à boca. Queimei as mãos e a língua. O café era amargo e forte com as borras que vieram junto. Ela assistiu ao meu choque quando percebi que me queimava a garganta, o café. Se ela não me olhasse teria cuspido fora. Queimei também a garganta. O dano já estava feito, que fosse até o fim. E aí ela quase falou. Abaixou os olhos como se me evitasse para não ser plateia do meu constrangimento. Eu usava um pijama de que meu pai se envergonharia, e estava nu. Ancorei com peso os olhos no preto enchendo o copo enquanto descansava a boca queimada para um novo gole.

– Tá pensando em ficar um tempo dessa vez?

– Eu tô aqui, e como sempre, não sei o que fazer com o tempo.

– Parece que a gente se esforça até cair e não diz nada significativo.

– Nada é.

– Ah, não. Não começa, o café nem me queimou ainda…

– Ok, ok.

– O que você tá pensando em fazer, afinal?

– Tô seguindo o combinado, não tô?

– O combinado é levar a vida assim?

– Assim como?

– Como se houvesse sempre algo ali do lado pra te socorrer.

– Não.

– Então.

– Essa vida é o que me socorre.

Sabia fazê-lo quieto. Mais um gole. E os olhos à procura dela. Ela não estava mais ali, nem a xícara, nem o pedaço de plástico que dava contornos de realidade aos olhos, aos ombros, as costas arrepiando de medo de amanhã. Cresceu nele o desespero de sempre. Quase implorou para que um vizinho a tivesse visto chegar. Quase quis não ter levantado da cama. Checou os dois quartos, o banheiro sujo, o corredor escuro. Ela não estava mais ali. A porta seguia aberta. O copo vazio. A boca ameaçou gritar o nome dela, mas ele sabia que não havia um. Os olhos aceitaram quietos.

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Um comentário sobre “olhos de dizer

  1. De vez em quando, com saudade, repenso nas manhãs de domingo, essas manhãs abençoadas por serem de calmaria, em que, na cozinha, ela bebia seu café e eu a observava alegre. Agora bebo chá e só, porque não é coisa de gente ruim. O copo sempre meio vazio…

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