Do silêncio ao abraço

Um dezembro de um ano qualquer. As pessoas estavam mais ciganas que o costume, como era o habitual para esses dias dos anos. Toda sorte de sorrisos apareciam nesses dias: amarelos, sem dentes, com aparelhos coloridos… todos os diálogos começavam ou terminam com a mesma frase ou com pequenos desvios vocabulares ou com oscilações de entoação: feliz ano novo!

Era inevitável ao término dos breves contatos o questionamento: mas no que ela vai contribuir para esse desejo? Invariavelmente concluía que as pessoas vestiam palavras vazias e cada vez mais o silêncio era uma companhia reconfortante. Silêncio, não. Silêncios: o silêncio da solidão, o silêncio na multidão, o silêncio de móveis onde poeira repousa, o silêncio de imóveis onde cresce a vida silenciosa de plantas, vermes e toda sorte de seres que as frequências de onda não são por nós captadas.

Mas não cabia ser triste nesse tempo. Longe, alguns cães latiam em desespero e algumas aves entoavam um canto agradável, esse silêncio era novo, pensou e anotou como frase para algum texto futuro. Se arrumou devagar, enquanto escolhia com frieza uma dúzia de palavras pra vestir na saída numa tarde quente. Soltaria algumas para os conhecidos que topasse no caminho. Secretamente alimentava  a esperança de encontrar àqueles que mereceriam mais que palavras:

abraços.

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