breve e de pra sempre

Outro ano beirava o precipício. E ela queria muito cada um. Queria tanto. Era tanto que reservava para cada um carinho que mal cabia vento entre mão e ele recebendo afago. Quase não havia vão entre ela e os tantos eles que ela quis tão desesperada e verdadeira e fugaz como seus olhos escancaravam dos primeiros encontros às despedidas inevitáveis. E folheava. Ela era assim breve e de pra sempre. Pra sempre se lembraria daquele abraço que parecia dentro, de tão deles, de tão bom, de olhos fechados, pezinhos estendidos pra alcança-los quase sempre mais altos, ruivos, olhos claros cheios de futuros secretos a ela. Interditos a ela. Nunca mais soube do primeiro. Um após o outro, folheava. Do segundo, nem mensagem de fim de ano, dessas banais, dessas que se diz ou se manda até pra um bom vizinho. Nada. Nunca mais soube do oitavo, mas quis tanto. Quis que o décimo mesmo que não desse em nada, que ele quisesse tanto, que mandasse até uma carta – em seu mundo as pessoas ainda e “como não?” trocam cartas e abraços tão bons que desaparecem braços, traços e trajetos. Um papel onde se leria “sim, eu não quero. eu preciso.”, ou ainda um “eu também” em letras graúdas ocupando todo o espaço entre ela e os passos de pressa dele já chegando ali à vontade quase em casa dizendo só “eu também”, porque os dois – qualquer que fosse o ele – saberiam exatamente do que se tratava o “eu também”.

E mês depois do outro se escutava saindo do quarto dela a voz abafada, entrecortada por alguns silêncios, vez e outra uma gargalhada. E os quadris da mãe repousando preocupados na cozinha.

Essa entrega súbita, o quarto fechado suando nos dias mais quentes, esse querer inquieto, essas mãos se enxugando nos lençóis da cama, espelhava testas franzidas e bocas cerradas no resto da família. Não havia com ela – tanto quanto quando ela se agarrava neles num carinho – um vão que coubesse a menor indagação, e a preocupação de sempre tinha sempre um lugar cativo no silêncio. Ela não permitia ser alcançada. E folheava. E não se deixava ler. O amor que ela respirava pela família era tranquilo, quase mudo, no jeito de inventar favores pra fazer a todos, como quem pedisse trégua na vigilância permanente sobre sua vida pouco ordinária. Como quem pedia água depois um deserto de dias quieta, ela conseguia manter as pessoas da família todas caladas, assim como num sonho de alguém que nasceu no lugar errado, no tempo errado, mas no corpo certo. Um corpo que folheava faminto. Vez ou outra fazia os olhos dos primos dançarem, era um jeito de dizer que sabia exatamente como fazer do jeito que todo mundo faz, só pra mostrar que era só por querer que ela escolhia outros braços, outros calcanhares: sujos, pretos, que corriam, descalços, os contornos borrados, de destino incerto. Outros calcanhares. Que eles nunca conheceriam. Porque eram de vento e invenção esses outros calcanhares. Para os primos ela só mirava uma vontade de conquista, só por poder. Ela flertava com o impossível fechada em seu quarto.

E mês depois do outro também o choro doído de quem perdeu pra sempre o que quis tanto escapava até a sala, e o pai aparava a testa com os dedos cansados de o ritual se repetir sem que ninguém pudesse fazer nada.

O calendário pendurado no espelho do guarda-roupa lotado de anotações em cada mês. De cada um deles. Como conheceu, como descobriu, como a mão secou, gelou, suou.  E cada abraço novo e tão diferente e tão igual de serem tão fortes tão inteiros de serem assim de sentir por dentro: “abraço torto”, “esse me sufocou e eu quis mais”, “abraça como quem quase morre”, “tanta ternura que a barba virou minha casa”, e cada um mais e mais e mais que o outro.

A vida saía e voltava ao papel. Nascia e morria assim: dos livros ao calendário. Dali não escapava, não fugia, era o muro que ela precisava.

Enquanto pensava qual seria a desculpa do ano pra fugir da reunião de família e abraços obrigatórios; enquanto fechava o olho e fingia que voltava a cada mês de antes do calendário pra cada um deles, pra todos… Retomou no colo o livro descansando perto da cabeceira, caminhou uma, duas, dez páginas. Nada. Mas seguiu, passos largos na cama de lençol novo, pra um abraço novo, que o último não podia esfriar. Quinze, dezesseis, dezessete. Dezessete. O coração acelerou e os olhos cresceram em lágrima e brilho febril. Se deteve um instante. Levantou. Foi até o guarda-roupa. Tirou o calendário e anotou: “Na esquina com a dezessete meu peito ardeu”. A porta, num vacilo proposital, entreaberta, escancarava pra alguns pares de olhos curiosos da família que ela continuava a de sempre: os braços envolvendo o vazio, o livro aberto no abraço de sempre. Ele era alto, magro e a barba descia em trança. O corpo dela sustentado no vazio cheio de invenção.

Foi assim em cada mês de antes, continuaria assim depois: os abraços, afagos impossíveis, aconteciam ali dentro dos olhos dela, do peito pra dentro, não alcançava carne e presença no mundo de fora. E enquanto mãe e pai em desespero desatado prometiam infinitos pra ela sair do quarto e viver uma vida “de verdade”, ela enquadrava um sorriso labial, os pés miúdos esticados fazendo inveja às melhores bailarinas. Era longo o abraço suspenso no moço que havia e não havia. Até o próximo folhear novo. Ela era assim breve e de pra sempre.

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