a menina que guardava biscoitos

Foi arrastada pelos braços frágeis. No caminho, duas marcas criadas pelos pés roçando a terra. No rosto, dois fios úmidos corriam como trombas d’águas: fortes, barulhentas, dolorosas.

Na porta, dois corpos tremiam abraçados. Um tremer agravado pela situação, mas que já era natural dada a idade e a fome. Nas faces, o choro preenchia os sulcos riscados pelos anos que agiam como bisturis afiados, desenhando sem cuidados com contornos ou retas. Curiosamente, ao redor das bocas, as marcas eram mais evidentes, marcadas pelos sorrisos que a pequena arrancara por anos.

No cenário pobre, meio pacote de biscoito repousava à mesa. Nos estômagos eram digeridas as palavras ditas pelos oficiais: “velhos (…) incapazes (…) criança (…) miséria (…)”. E a felicidade do pouco alimento que a neta guardava da escola para repartir com os avós, deu lugar à solidão e ao silêncio que aos poucos consumiram aos dois, que em intervalos curtos, um por sua vez, foram morar no chão.

Longe e alheia aos fatos a pequena crescia sob tutela de alguma instituição. A comida era farta, as mãos acarinhando o topo da cabeça eram ausentes. Ela cresceu sem gostar de biscoitos.

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Um comentário sobre “a menina que guardava biscoitos

  1. Todo mundo deve ser capaz de estar calmo à medida que se senta. Vovó vive pronunciando. Mas agora, mesmo sentado, estremeço. No coração, golpes de pequenas agonias, algumas desolações. O mundo não é das princesas. Então, desamparado, dá vontade de abraçar o autor de uma obra assim, apertá-lo contra mim, carregá-lo nos braços e morrer logo depois, quando, mal respirando à borda da loucura, paro. A vida vai além de bolachas! E rio, em breve oceano…

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