O pior da cidade

Que é um açougueiro? Ué, o homem que serra a carne, que a depura, separa por classe, embala e arruma o balcão de vendas, quando não varre o mercado. Bem, meu amigo, o Carlos, da Rua Osvaldo Amâncio, era o pior da cidade.

Mas não depravemos o cabra, pelo amor de Deus. Ele possuía ampla compreensão do corpo suíno, sim, seu ramo. Ocorre que, ao longo da carreira, passou a se enrolar nas compras, sem mencionar mais coisas. Embalava perna, ao invés de coração, como alguém havia encomendado. Trocava as classes dos bichos. Limpava-os, ainda, com a própria escova bucal e, aéreo, roubavam-no sempre.

Tudo era um problema de comodismo. A sério, na época de menino e apaixonado por Ozu, queria mexer com Cinema. Porque, vendo Tokyo-Ga na TV, soube: Ozu é um gênio. Porque, por meio de Ozu, riu e chorou na mesma hora, uma vez. Porque, em suma, ansiava que as pessoas presenciassem aquela sensação surreal: a vivência enchendo uma sala à medida que um cano enche uma banheira que esvazia em sincronismo à mesma velocidade. Mas essa coisa, para os pais? Troço de viado! A ideia do açougue surgia acima de um mero negócio: herança sanguínea. Perdurava em sua casa há décadas e décadas, desde o bisavô. Logo, perdeu para a pressão. Virou um merda.

Só parava aos domingos. Num desses comuns, ocorreu algo engraçado… Tinha amanhecido cedo, com o perfume de pão cálido. Viu, erguendo-se da cama, que sua esposa o removia da assadeira. Tava louco por um, com margarina, acompanhando a bebida, e achou a pãozeira purinha de nada. Escancarou o armazém, decepcionado, onde havia apenas porco. Queria perna, pegou coração. Puxou uma peixeira da calça, suspendeu a carne e a golpeou, raivoso, duas, dez, cem vezes. Furou cinco dedos e uma berruga que parecia mais um do grupo. Desmaiou, com o cheiro de sangue abrasado. Qualquer pessoa o achou apagado em sua própria poça de sangue e chamou breve uma ambulância. Na enfermaria, acordado, observou ausência. A mão, decepada como os sonhos do passado. Meio perdido, adormeceu de novo. Devaneou que cursava Medicina numa cidade bem longe. Dava boa grana e não seria ele o machucado, pensou quase rindo.

Que é um açougueiro? Ué, o homem que serra a carne, que a depura, separa por classe, embala e arruma o balcão de vendas, quando não varre o mercado. Bem, meu amigo, o Carlos, da Rua Osvaldo Amâncio, era o pior da cidade.

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