Revoava

Pisava firme as pernas morenas nos passos só dela. Quando passava, bocas secavam, desalinhava gravatas, corroía certezas, moía verdades. O cheiro bruto curtido de sol e suor escapando do berço de raros amores, muitos quereres, esse cheiro escorrendo água e sal colo abaixo, desdenhava perfumes de frasco nomes frescos doçuras de prateleira.

Não caminhava. Pisava. Era excesso. Precarizava retidão. Torcia, nos lábios lambuzados, manuais de ser. Numa das mãos, uma manga jazia. Fiapos do que foi sumo, agora secos de nunca mais. Se via de longe como ela apertava forte a fruta amarela, que pingava as últimas gotas de vida.

Os olhos passeavam rasantes entre o caminho que fazia e o chão. A boca, num sorriso de ameaça à beira de um precipício, tramava segredos inconfessáveis, vontades alimentadas com gula e mordidas nos lábios inquietos. As bocas pequenas de gente ao redor inventando feitiços que ela desconhecia: plantava mentira em sonho de menino, sangrava as meninas antes da hora, benzedeira de inverter pescoço e juízo de gente desguardada.

O corpo esculpido de tempo e pinturas algumas tragava voraz cobiças contidas no peito e na boca de homens meninos. Tragava. E depois cuspia. Moldava o chão com o humor do dia, hora riso frouxo hora cara amarrada pensamento breve ideia longe. Voava deitada no sofá surrado quase verde mais pro cinza sempre que o sol ameaçava subir as sombras de dentro da casa.

A borda do ombro causava feitiços imemoriais em mulheres incautas. O colo suado espalhava febres incuráveis mesmo nas mais sabedoras de si. A voz como que invernada por eras em baús de cobre e pedra rasurava o entendimento da gente de bem, embrulhava a ideia do pensamento de retidão.

O vestido era longo. A paciência curta.

Era uma tarde de sempre na soleira mal varrida escandalizando os vizinhos asseados. Os pés pequenos quase pretos por igual denunciaram uma longa desavença com as sandálias. Os pés pequenos quase pretos coçaram de se deitar nos passeios de todos, carregando o pó e a sujeira bonita de dentro dela pro mundo.

Os cochichos a acompanhavam o caminho inteiro. Era mais interessada nas curvas do chão queimando, nas linhas marcando o tempo por onde pisava, o mesmo tempo de castigar as vaidades menores de senhoras amarguradas, de senhores vestindo shorts curtos, camisetas escapando dos cintos puídos. Enquanto passava todos eles maldiziam.

Ela chegou no mercado quieta, procurou a banca de frutas. Chegou. Escolheu a maior manga de todas, a mais rosada, quase um desespero de ser usada pela boca de derrubar vergonhas. Pegou, apalpou, apertou. Mordeu. Pôs a perna morena, ainda coberta pelo vestido, em cima de umas caixas no chão. Puxou o pano leve até a altura de causar homicídios em epidemia, a coxa escorrendo calor, e uma faixa de pano amarrada segurava as notas amassadas em muito suor e pouca vergonha. Tirou de lá a nota menor, pagou à dona da banca que olhava boquiaberta. Se riu, deu as costas e seguiu caminho.

Revoava.

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Um comentário sobre “Revoava

  1. Assegurar a nossa comodidade e razão. É o que nós e aquela dona da banca queremos sempre. A que puxou o pano, cansada de esconder-se no meio de um povo raso, antes empenhada em ser como ele, revoou. Deu às suas asas o bater que precisavam, retornou ao que era: única. Ficamos de boca escancarada, sim. Porque pessoas audaciosas sempre perturbam as demais.

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