Semideserto de sonho

Ela tinha vontade de morrer.

Era linda. Tinha um riso de quebrar teima. Fazia o trajeto entre o quarto e a cozinha sempre com o mesmo balanço de quem engana o caminho, como se o infinito coubesse em quinze passos de gosto amargo. Cultivava calos nas últimas falanges das duas. Às duas da tarde era quando os calos das falanges das mãos ardiam. Era tanto café que mal se sabia como ela conseguia desligar à noite. Fazia parecer prosa menor: punha a xícara no movel acanhado, os olhos fixos, as ideias inquietas já pousando mais brandas, o rosto ganhando contornos quase infantis, com alguma vontade era possível enxergar um sorriso se pondo discreto num lado escondido do rosto. E os olhos cerravam num só golpe.

Acordava cedo. Forjada em longos trajetos. A mão encolhida, tensa, indicador e médio à frente, como se acordasse com a xícara já cheia de coisas que não fará mesmo querendo, de muitas mais que fará sem querer fazer. Tinha voz doce, contrariando o peito semideserto de sonho. Desse amontoado de aparente paradoxo ebulia vez ou outra, como grito de contra-ataque, como um golpe devolvido no vento chiando maldições incompreensíveis, mas sentidas uma a uma em plenitude.

Não escondia a condição de condenada. Cumpriria a pena. Um vacilo ou outro, não se intimidava em admitir. Cumpriria a condenação: seguir saltos curtos de uma pedra à outra, escapando por pouco à água quente.

A água quente ebulindo na cafeteira que contava estórias de antes. De um passado inventado. De risos frouxos por infinitos segundos. De olhares decantando alguma graça da vida. Mas sempre à beira de inventar fim.

Sentava em frente à máquina de escrever morte como quem caía em precipício. A cadeira conhecia já havia muito suas formas. Era o único abraço que aceitava já por algum tempo incalculável. Daquilo se alimentava: avisar a olhos alheios o sucesso de desconhecidos na empreitada que ela ainda não havia se entregado como prometido.

Anos depois de ela sumir alguém contou que o café do dia inteiro era um acordo com as vontades que insistiam dormir dentro dela. “De tanto não querer vou acabar desistindo de existir”, teria dito num raro momento de confissão a uma amiga que jamais foi.

Escrevia obituários como ninguém.

E tinha vontade de morrer.

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