[me dê um título]

Era rede deitada em tarde modorrenta

morna

abafada

em que ela dizia deitada

– morre não.

– não morro.

– não morre?

– morro longe.

Ela sorria satisfação. Não importava o que ele dissesse. Importava que movesse os lábios, batesse dentes na língua inquieta, sorrisse de preguiça de dizer. Sorrisse. Viesse. Deitasse. Nunca mais fora dali. Nunca mais outra tarde como aquela tivera. Tivesse, se nunca mais, estava bom de trecho de infinito. Estava bem. Estava quase morte de paz e de guerra. De quase partir os paus segurando a casa. O teto. Os braços da rede. Eles ali. Em paz e guerra.

Era tarde deitada em cômodo silêncio

era tarde beirando os passarinhos beijando árvore

árvore tremendo vento

era tarde escutando as vozes

dizeres das velhas voltando da missa

num caminho de terra

levando a lugar algum.

lugar algum tivera tarde como aquela.

Tivesse, estariam todas as gentes mortas, vontades insepultas, testando a firmeza dos paus sustentando a casa. As ideias. A sensatez aquietada. Estariam todas mortas. Ensopando os pés na lama. As roupas rasgando nos varais passando dias e ventos e chuvas e sóis, os varais quebrados, estendidos no chão de terra quente, vermelha, dissimulando miragens de passados de pouco antes tanto tempo.

Ele pensava demais. Importava cada artigo que ela engolia. Era um terceto aqueles olhos boca e queixo marinando verdades que ele incontestaria. Tudo que ela dissesse. Se ela dissesse, ele imaginaria que seriam. Coisas todas de verdade. E não-coisas também. Não-coisas da natureza do borboletear, do se deter sentindo excesso, do tempo calando tudo ao redor dela tirar uma mecha menor do olho rasgado enquanto fala de uma coisa absurda e imperdoável e maior que mar.

Era tarde já quase noite em ressoar de grilos

era tarde já os olhinhos dela beirando beijar os sonhos de sempre

boca dizendo espelho, por favor, embora não,

desprezando sentido

ignorando a explicação dominical das senhoras de fé

de suas saias estranhas e incorrigíveis

e todos os adjetivos de joelhos

levando a lugar algum

lugar algum tivera tarde como aquela.

Tivesse, estariam todas as gentes tortas, fora do trilho da virtude, de seu cabresto duro, acre, intestinando narinas distraídas. Fazendo provar o gosto de que nada seria como tarde aquela. Nada haveria que fizesse diminuir o laranja do céu e das mãos manchadas de cascas e cascas e cascas de tangerinas quase maduras perfumando ela. E ele. E eles misturando um cheiro no outro até não haver distinção entre o que era fruta o que era pele o que era pelo o que era chuva se anunciando de longe e tangendo a passarinhada para trás da casa pequena, mas interminável.

Eram estranhos conhecidos de há muito deitando futuro do lado de fora dali. Deitando o depois pra mais tarde longe dali. Longe da rede, do silêncio, das bocas palavreando qualquer desencontro, perdidas, passagens onde o tempo morre. Porque era para eles assim, aqueles. Era assim que o tempo morria: enquanto escutava o que eles diziam de ser tudo e nada. E mais que isso não havia. Se houvesse. Estariam todos mortos. Línguas, apenas elas, enfiadas sob a terra, e corpos vergados em ângulo impossível.

Era rede deitada em tarde modorrenta

morna

abafada

em que ela dizia deitada

– morre não.

– não morro.

– não morre?

– morro longe.

Mas era tarde

era tarde

 

demais.

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