Não se pode confiar em um escritor

Não há nada para ser escrito, tampouco haverá algo que se possa ler. O escritor bebe a água amarga do desprezo como quem sorve o melhor dos vinhos. Quando lhe é destinada cordial atenção, ele tende a recuar. Ora, “o que há de mal nos aplausos?” – Você pode se perguntar, e eu te respondo: não há absolutamente mal nenhum! O mal está no próprio escritor que nasceu sob essa condição. Se um dia, muito por acaso, eu vier a ter um filho, e se alguém vier me perguntar o que quero para o futuro da criança, eu prontamente lhe direi: quero que não escreva! Sim, escrever, ato independente de escolaridade ou alfabetização. Copistas temos aos montes, escritores são poucos. E bons escritores, esses são raros, quase extintos, morrendo silenciosamente para enfim serem lembrados no Jornal Nacional. Escrever é um rito sádico de voluntariedade duvidosa. O dito escritor escreve porque quer, mas, mesmo se ele não o quisesse, continuaria a escrever. Escrevendo ele extravasa as dores que teve ou inventou ter, apaixona, enreda, se deixa apaixonar e depois esquece tudo com a cabeça posta em um travesseiro um tanto quanto gasto, ou em um copo tonto a encher seu corpo bêbado. O que ele sente está condicionado ao parir do texto, passadas as dores do parto, texto finalmente escrito, há um vazio e um desprezo tão grande por aquilo que resultou, que ele não o quer. Despreza de tal forma sua obra que passa adiante, esperando ou não em Deus, que alguma alma melhor que a sua se identifique com o que ele fez e tome o escrito para si, em um ato de adoção imediata. O escritor talvez seja o mais miserável dos seres. Miserável por entender tão bem a miséria do mundo,  a miséria do homem, a miséria dos corações aquecidos pelos bombardeios na Palestina. Ele nada pode fazer, ou ele nada quer fazer, apenas escreve expondo sua carne mutilada pelo choro das mães dos meninos que morreram cedo. Dorme, bebe, come e ama como sempre fez, uns o chamarão de hipócrita, outros de genial. Ele não se contentará com nenhum dos julgamentos, jamais se contentará com o que é. Não há nada para ser escrito, tampouco haverá algo que se possa ler. Não se pode confiar em um escritor.

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