O velho e o moço (a estória que não queria nascer)

(essa estória que não queria nascer fala de casa. da casa de um velhinho quase galho vergado de magro.)

saindo de casa. de uma casa quieta.

quase vazia.

saindo com um embrulho debaixo do braço.

e seguindo andando uma estrada longa pras pernas dele. e chegando numa praça.

e encontrando os olhos de um outro magro, moço, quase vergado.

e os olhos se encontrando. e brilhando de um encontro de riso e de já se conhecerem de outras eras desconhecidas.

e o magro quase moço querendo saber o que trazia até ali o velho quase vergado, exibindo as dobras do rosto, os ângulos retos de ossos incansáveis. quase se podia ver que não havia para aqueles olhos fundos qualquer razão de ter uma certidão de início, um documento roto dizendo bobagens sobre um tempo incontável.

e seguiu-se o diálogo de sempre: se sabendo o ritmo do outro, o verbo alheio, a palavra ritmada pedalando na língua, o sopro de som que a voz escapa rua afora, peito adentro. e mãos à boca, e risinhos incontidos, e ombros torcendo de quase constrangidos quase quietos observadores rodeando aquele trecho de vida correndo ladeira acima.

e aí o velhinho tira debaixo do braço um embrulho florido, surrado, suado. e todos os olhos de todos os lugares se movem para aquelas mãos curtidas, para aqueles braços frágeis firmes fortes. todos os olhos de todos os lugares num movimento só, de sol mirando a terra. todos sincronia e dança quieta enquadrando as mãos e braços frágeis firmes fortes afastando o embrulho do corpo. pousando sobre uma madeira morta, mesa posta em marrom e fomes incontáveis.

um embrulho brilhando a mágica antiga, ele carrega. o velho. e desenrola.

e a língua desenrola explicando as infinitas propriedades mágicas do conteúdo.

o magro moço escuta atento, enquanto pergunta alguma bobagem que faz o velho beirar o riso.

daí que eles combinam o preço, a mágica requerida, o velho se empolga. a conversa se alonga.

o velho ensina os caminhos da mágica do embrulho derramando cheiro.

o moço guarda o embrulho. eles se olham em olhares de entendimento. e mãos estendidas de firmeza e até logo ligeiro, a boca do velho dizendo infinitudes de um tempo incontável.

o velho vai embora.

chega em casa. a casa quase vazia. o peito cheio. a casa cheia de uma felicidade pequena de trabalho cumprido, de destino selado, de tempo diluído.

a mágica não morreu essa noite.

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