Promessa breve de futuro

Não apareceu fácil, tu. Veio cheia de anúncio, cheia de ameaça velada. Primeiro momento sequer se revelou. Se escondia atrás de geografias beirando impossíveis. Me fez te procurar uma. Duas. Três vezes. Sem encontro. Não era fácil repetir pra mim que precisava respeitar teus silêncios, tuas ausências.

Me armei de tudo que foi jeito pra descobrir tua rota, teus refúgios de meus olhos. Então assim depois de tanta curva, tanto silêncio, tanta alegoria pra um encontro, você avisou quando chegava, coisa breve, ligeira, assim de passagem, como não fosse nada.

Abri a porta assim de vez, como se fosse acaso, eu. E te vi lá, um véu, um vestido fino te cobrindo, volta e meia, ao menor sinal de um lamber do vento, farfalhava o véu, o vestido, uma prece sem destinatário. Minhas mãos em prece beirando o rosto, quase não disfarçavam a danação do meu oratório.

Mas você não reagia ao meu espanto, ao meu transe encardido, ao meu suor de impaciência silente. Torcia pra você seguir ali, nua, quase inteira, quase minha. Prometendo um futuro breve de repente. Prometendo um futuro de próxima esquina, de próximo ônibus, próximo da fila.

Apesar dos meus olhos afundados em tu. Não cedia aos meus apelos, seguia indo, fazia que vinha, mas indo. Se afastou, se afastou, até que sequer conseguisse vê-la. Até que sequer conseguisse distinguir véu e vestido. Sombra e luz. Rosto e entorno.

Até que tu se deitou detrás de uma pedra grande que não sei o nome. Até que tu sumiu, Lua.

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