Manga verde com sal

“Eu queria ficar lá”.

“_ Comia manga tirada do pé, com sal.
_ Botava pimenta-do-reino e vinagre…
_ Nunca comi assim.”

Nos jogos de criança, saltava os grupos de pedras na praça da igreja, algumas vezes podia pisar somente nas brancas, outras só nas escuras, na saída da missa que a avó obrigava aos domingos pela manhã. Corria pela rua do padre, mas se escondia quando subia um enterro. Nem precisava saber que era o morto: tinha medo! Até chegarem seus primeiros mortos.

As mãos furtivas de adolescente, por baixo de alguma saia. Por vezes repelidas, porém aceitas quando era escuro e não tinha ninguém perto. Depois contar aos amigos com riqueza de detalhes inventados, que sabiam que era mentira. Eles não ligavam, cada um tinha as próprias histórias cheias de detalhes inventados.

A ida tão sonhada para uma cidade maior. O futuro que se anunciava e seu poder de tranformar tudo em lembrança. Varreu nomes: de ruas, de animais de estimação, de pessoas… Casas que viravam prédios, paralelepípedos que foram cobertos por asfalto.

Árvores velhas que tombaram.

Em cima dessas árvores muitas vezes ele subiu para olhar para o futuro. Hoje lembra do passado, enquanto reúne recibos para declarar o imposto de renda.

“É. Eu queria ficar lá.”

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6 comentários sobre “Manga verde com sal

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