Café

“Trago em minhas mãos orações meninas
Que enchem meu coração de olhos dos meus pais…”

Ele encheu uma caneca e uma xícara do café que fizera um tempo antes, a caneca até um pouco mais da metade, a xícara um pouco abaixo. Tomariam juntos o rotineiro e mudo café matinal. Só café. Ele já havia feito o desjejum há tempos, ela não tinha fome logo ao acordar. Entregou-lhe a caneca e a observou sorver o primeiro gole. Café preto, forte e amargo como gostavam os dois. Ao ver nela o meio riso que aprovava tudo, tomou ele seu gole também, deixou-se sentar ao lado dela no sofá, juntos assistiam o segundo jornal da manhã, o primeiro ele havia assistido sozinho enquanto ela lutava contra seus últimos minutos de sono, vez ou outra olhavam-se num soslaio uníssono. Ele olhava o rosto dela procurando conhecer algo que não viveu. Ela olhava para ele buscando saber algo que não conhecia de si. Ela, no atrevimento da saudade, deslizava a cabeça que ia descansar na segurança daquele peito que lhe conhecia tão bem. Ele, surpreso pelo raro e inesperado gesto de carinho, passava-lhe o braço ao redor e assim se deixavam ficar.

– Pai, eu ainda sinto falta dele.

– Eu também.

Acabado o jornal, ele levantava recolhendo caneca e xícara levando-os pra pia.

– Vê se sai um pouco, tá muito branca.

– Acho que vou ler.

– Come antes.

Fechava portas e janelas pra o barulho do ofício incomodá-la menos. Era a felicidade nos versos do poema primeiro.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s