Briga de amar

– Vou chamar um taxi pra você.

– Precisa não.

– Mas vai como a essa hora?

– Vou.

– Tá bom.

Ela sai pisando o chão como se cada trecho de madeira fosse uma parte exposta em purulência do corpo dele.

– O quê?

– Como “o quê”?

– Não tô bem.

– Tô percebendo, mas você não diz.

– Tá. Chama o taxi.

Ele arqueia as sobrancelhas falhadas acima da incompreensão.

– O que foi agora?

– É.
 Desisti.

– Por que você tá fazendo isso?

Ela desarma os ombros em suspiro de enfado.

– Eu sinto muito.

– Pelo quê?

– Sinto demais.

– Por que tu gosta de falar assim cifrado?

– Porque é impossível pra mim dizer de outro jeito. Esconder de outro jeito.

– Ah… O que tá pensando?

– Que eu tenho isso tudo aqui atolado no peito, trancando a garganta em grade, e você não entende…

– Com poesia é mais difícil entender, tu sabe.

– Que poesia o quê? Desde quando dor assim é poesia?

– Cê tá falando poesia.

– Eu tô falando dor, entendeu? Dor! Eu sinto demais.

Os dois aquietam. Ele ameaça estender a mão nos cabelos desgrenhados de horas de dizer coisa alguma com muito verbo e segredo. Ela abaixa a cabeça em negação.

– Olha pra mim pelo menos.

– Não precisa.

– Tô pedindo.

– Conheço tua cara de medo.

– Não tô com medo.

– Então me empresta o telefone que eu vou chamar o taxi.

Ele estende o celular para ela. Ela lacrimeja.

– Filho da puta.

– Como é?

– Filho-da-puta.

– Você quer ir. O que tu quer que eu faça? Me diz.

– Eu tenho nojo de você. E eu só queria te dizer que… Tanta coisa…

– Você não tá bem não.

– Tenho nojo do barulho que você faz quando come. Tenho nojo de você assobiando no banheiro. Tenho nojo. E preciso escutar o barulho do chuveiro quando você diz que vai tomar uma ducha rápida.

– Eu vou chamar o taxi.

– Vai chamar porra nenhuma. Você precisa me ouvir.

Ele começa a teclar no celular. Ela avança pra cima dele chorando e o estapeia. Ele não se move. Ela vai soluçando o choro enquanto desacelera os tapas, até descansar a cabeça no peito dele. Ele fecha os olhos numa expressão de dor. Ela abre os olhos, fixa o olhar.

– Eu te odeio. Mas é impossível te odiar tão perto.

Ela sorriu, abaixou a calcinha num gesto ligeiro à altura dos tornozelos, e esgueirou a mão para o zíper dele enquanto virava de costas. O vestido era curto. Como sempre.

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