Terapia (ou “aquele dread”)

Para Kary, os meus sorrisos em meio ao CAUS.

Descia a ladeira de passo curto e leve, ainda era cedo, as ruas de quase ninguém deixavam o vento chegar. Não precisava ter pressa. O sol que já ardia engolindo a manhã, secava a chuva pra ela passar, era rainha de si, era a dona da rua, seu séquito a seguir-lhe cantando um reggae nos fones. Não precisava ter pressa. O ponto de ônibus convidava à espera. O rosto sisudo, ajudado pelos óculos, afastava engraçadinhos e ladrões, por dentro ria-se toda, a noite foi boa. Ensaios de verão sempre renderam alguma coisa, e ela cobra alada, nascida e criada em Salvador, sabia muito bem o que e onde procurar. Jeito firme e intimidador de quem fazia protesto, escondia a timidez em revolução na alma sempre a cantar. Rememorava em pensamento diálogos, gestos, cheiros e toques da noite anterior, com o prazer que só as moças tem:

– Ele tá aqui, me esconde!

– Como posso eu te esconder?

Riram.

Ele passou puxando-a pelo braço, beijo no rosto do jeito de quem não precisava dizer nada, tempero de dendê que combinava com o dela, na certeza de que não era pra sempre, não era pra ser sério, mas era pra ser.

– Vou buscar um cravinho, você quer?

Riu boba, com a voz quase trêmula.

– Não, obrigada.

– Espera, eu volto.

– Tudo bem.

Ele foi, certo de que a havia pegado em sua arapuca.

– Ei, vamos sair daqui?

– Oxe, você não disse pra ele que esperava?

– A gente veio aqui hoje pra beber e dançar. Festas terão muitas para eu encontrar e perder ele outra vez. Agora anda, nossa “Terapia” já vai começar.

Riram em cumplicidade da amizade sem rivalidades que poucas mulheres conseguem ter. Puxando uma a outra pelo braço, foram dançar sem mais nada querer. Perderia ele, perderia outros, só não deixaria perder-se de si. Desencontros propositais de fêmeo entender, chamariz de cigana na certeza de quem vai negar, coisas de menina a brincar de mulher. O ônibus finalmente chegou interrompendo a divagação, subiu. O ônibus foi, ela foi junto, a cidade passava, ela passava, alguma coisa mudava e a alegria crescia, era tempo de renovação.

 

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