Desencontro às claras

Já ardem meus olhos. Demora. Mas ardem. Ardem dessa coisa tua de sumir. E aparecer. E voltar. E sumir. E ir-se em desafio à minha sanidade, por pura vontade de me ver de joelhos. De me ver de cima. Essa tua vontade de me salvar do mundo, das coisas, de mim, de ajudar meu analista. Que coisa mais morta e morna e meia-vida essa de aceitar ir ao analista. Onde tu deixou de gostar dos meus tropeços, da minha embriaguez esporádica, dos meus versos vergando, vertendo sem final definido? Onde tu deixou de achar boa a minha falta de clareza, a minha certeza, minha certeza coalhada na toalha de mesa florida. Minha certeza coando teu café forte, teu leite sem nata. Onde foi que isso ficou? Naquela estradinha que a gente escolheu sem saber onde ia dar, num dia de sol quente, de ameaça de chuva? E se a gente tivesse seguido à direita, onde é que ia dar? Nunca isso a gente vai poder saber, descobrir, nunca isso. Nem outras mais. Outras direções que a gente não vai mais saber no que dariam. Será que foi no aniversário da tua mãe? Será que foi no prato que caiu? Que eu deixei quebrar? Será que foi ali que tu partiu? Será que foi ali que te deixei seguir? Será? Me diz. Me guia. Nem que saiba pra um lugar longe do dia que você pisou meus óculos quase sem querer. Eu gostava tanto dos óculos. Preciso dos plurais. Foi você quem escolheu. Os óculos. Eu fingi que não. Você gostou. Mas agora os óculos que uso não são mais aqueles, apesar dos mesmos aros finos, das hastes largas, da lente impossível de limpar. Não são os mesmos, apesar de a cor gasta ser a mesma, e de a miopia e a outra coisa que nunca lembro o nome seguirem de mãos dadas. Como durante tanto tempo. Como pra sempre nosso. Como nosso infinito miúdo, frágil, quase sincero, quase preciso que você nunca desapareça, quase preciso que diga que continuo o mesmo. Mãos dadas, os versos que a gente errava sempre no mesmo lugar. E ria. A gente ria. Da gente. Era bom caminhar sempre tendo onde ir. Onde chegar. Era tão. Era tão, chegar em lugar nenhum contigo, e depois voltar. Era tão bom. Aquele abraço quase desinteressado, aquela conversa fiada, aqueles planos distraídos, contraindo futuros… Minhas infâmias que você suportava. Você suportava, mas ria como se fosse a nova coisa melhor que havia em mim. Eu era melhor. Era melhor ali dourando cuidados. Mas meus olhos já ardem.

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2 comentários sobre “Desencontro às claras

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