Maio

Entrou meio sem entender como havia ficado tanto tempo longe daquele quarto. Cores e cheiros tão familiares que já pareciam fazer parte de si. Deu um sorriso de canto, daqueles que não eram os seus, típicos risos largos de lábios, olhos e dentes, riso de criança que não teme nem sente o tempo passar. Descalçou os sapatos recostando-se no canto habitual e pôs-se a mirar o teto, parte do rito da breve espera. Da cozinha se escutava o barulho do copo a encher-se e esvaziar-se na boca sedenta de água e saudosa de beijos. O copo posto na pia, passos seguros que sabiam onde pisar, breve passada no banheiro para lavar as mãos e respirar coragem.  Entrou no quarto fechando a porta, ela encolhida no canto da cama e ele ali de presa. Deitou-se ao seu lado oferecendo o peito como travesseiro.

– Por que não ligou a TV?

Ela riu, não importava a TV. Ele ligou o aparelho e pôs um filme que ela jamais conheceria o final. Envolvidos num abraço sincero que gritava amor, estavam perdoados de qualquer briga de outrora. O beijo sem pressa dispensava as palavras. Juntos não eram muito de conversar, eram carinhos trocados, sorrisos sem explicação, céu em festa na tranquilidade e clareza do sentimento a crescer. Apertada contra aquele peito, envolta naqueles braços, impregnada daquele cheiro, ela era feliz. O compasso da respiração ritmada, a segurança daquele colo, daquelas mãos, lhe tiravam do estado de constante alerta que o mundo lhe impusera. E ela, sempre tão insone, adormecia sem medo e finalmente sonhava, nenhum dos habituais pesadelos a lhe perseguir. Ele, tão acostumado à cena, punha-se a preencher seu sono de carinhos e beijos, alternando o olhar entre a tela e a vigília daquela mulher que, ali encolhida entre seus braços, era a menina com quem anos antes aprendera amar. Filme acabado, ele conduzindo delicadamente aquele despertar.

– Acorda, amor.

Resmungo preguiçoso forçando o abrir dos olhos.

– Por que aqui você sempre dorme? Quando chegar em casa não terá sono, passará a madrugada acordada.

– Aqui tem você pra cuidar de mim, lá não.

Ele riu e deu-lhe o beijo que conduziria-os ao paraíso, beijo de noites felizes, beijo este que eles sabiam, jamais seria de adeus.

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3 comentários sobre “Maio

  1. É o amor, que lindo kkkk, Bela eu imaginei vc falando essa frase, com seu jeitinho, no momento que li – Aqui tem você pra cuidar de mim, lá não. kkkkk

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