Dia de lua

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Era dia de festa pra ela. Dia de por um laço de fita que a mãe guardava bem lá no alto do guarda-roupa. E gostava tanto do laço. Como gostava. Por que é que o laço tinha que ficar sozinho lá no alto? Longe dos outros panos de vestir? O vestido cobrindo os joelhos pequenos, a meia subindo na altura deles, a mão da mãe passeando os últimos carinhos no cabelo dela, tirando uns fiapos teimosos do vestido de domingo.

Era início de noite quando começaram a jornada. Os passinhos eram curtos, mas ligeiros, os olhos baixos como que marcando a coreografia: um pé e outro, um pé e outro. Sorriu de achar bonito o som do sapatinho novo testando a dureza das pedras. Foi quando viu o primeiro sinal de que ela viria: se espalhando nas pedras.

– Tá longe, mãe?

– Tá não, filha. Já já a gente chega.

E tornou olhar pro chão e se deixou cair em sonho nos potes de mágica guardados lá no alto da prateleira, beirando o telhado já. Por que coisa que muda o gosto das coisas tem que ficar tão lá no alto? Tão longe das outras coisas de fazer acender o fogo, abrasar a lenha.

Foram chegando ao destino. À porta, os olhos sorrindo no rosto de tanto amor e saudade. O cabelo rigorosamente enrolado num coque de sempre, as marcas do tempo conferindo ao relógio importância pequena. Pra que medir aquela hora em dois ponteiros inquietos? Pra que guardar tempo naquele círculo lá no alto? Dividindo os retratos da família?

Já abraçava a avó enquanto pedia a bênção. Os pezinhos suspensos alguns centímetros como se fizesse diferença qualquer diante da distância para os olhos sorrindo lá no alto, beirando o coque brilhando. Aproveitou pra espiar a posição da luz do céu. Se chegando pro lugar combinado de sempre.

– Vó, hoje é dia de morar na cisterna. A senhora deixa?

– Deixo, coração. Deixo sim.

E a mãe acenava e ela sorria de volta apertando os olhos miúdos. Deu a mão pra avó, seguiram o caminho mal iluminado. Passaram pela sala e estava lá o relógio falando sozinho, entre os retratos da família. Chegando à cozinha estavam lá os potes na prateleira. Por um instante a avó entrou num cômodo, voltou com o cobertor. Tinha bordado o nome da neta especialmente para aquela visita.

– Tá vendo aqui, coração?

– O quê, vó?

– Seu nomezinho aqui, ó. Escrito com linha. Vó que fez.

E os olhinhos de quem ainda não sabia ler brilharam percorrendo as curvas que a linha fazia no cobertor de noite de lua. E um abraço de olho fechado e riso labial. Seguiram pro quintal. Ela subiu desajeitada na cisterna, o travesseiro já esperava. Ela deitou, e os olhos brilharam como todos os dias de lua na casa da vó. A vó ali, esperando o cochilo ligeiro. Os minutos de eternidade ali olhando pra cima. Ela podia ficar assim pra sempre.

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4 comentários sobre “Dia de lua

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