Barra R2

Escolheu um assento à janela e deixou-se cair. O ônibus vazio foi uma surpresa que não julgou merecer, a vida não era fácil. Escancarou a janela até o limite, o que significava que tinha agora meia janela aberta. O cheiro forte de suor, o chão invariavelmente sujo, os apoios sebentos, um cobrador meio surdo e um motorista meio louco, rotina conhecida que lhe causava asco, mas hoje não. Seu rosto de cansaço e indiferença, denunciava que nada valia a pena. Recostou-se no banco de muitos suores sem se importar, deixou a cabeça pender e fechou os olhos, não era necessário ter atenção se lhe tiravam tudo quando estava alerta. O vento que vinha do mar no fim da tarde massageava seu rosto, carinho distante de quem há muito não tinha ninguém a lhe amparar. Respirou fundo engolindo saliva e choro, abriu os olhos para a cidade entrar, estranhamente gostava dali. Talvez porque fosse ali seu primeiro voo de passarinho fugido da gaiola a aprender a viver consigo mesma.

– Mendorato santelena, um é cinquenta, três é um real. Quem vai querer!?

Os gritos insistentes do vendedor fizeram com que despertasse do transe em que costumeiramente se colocava. Percebeu que alguém sentara ao seu lado e que o ônibus, antes vazio, possuía número considerável de pessoas, apesar de poucas encontrarem-se de pé. Começou a analisar mãos e unhas, ritual infantil que preservara para quando não soubesse ou tivesse o que fazer. Um ranger metálico, um tanto desafinado, roubou-lhe a contemplação. Som conhecido, som de conforto, som de casa, som de sanfona.

– “Tudo em vorta é só beleza, sol de abril e a mata em fror. Mas assum preto cego dos zoio,não vendo a luz, canta de dor…”

Uma voz lindamente cansada, denunciava os anos vividos. Maravilhada com o que ouvia sem saber ao certo se era sonho, procurou sem sucesso o dono das lágrimas que escorriam timidamente em seu rosto. Esticou-se tentando avistar o desconhecido benfeitor que agora cantava Asa Branca, as pessoas encheram o ônibus, entre pernas e cabeças, ela nada podia ver.

A sanfona cessou, uma prece, uma bênção e passos  arrastados a passar no corredor magicamente livre pelo espremer de pessoas que reconheciam os privilégios do artista. Eis que surge de roupa puída, um tanto desajeitado, passos lentos, tateando o solo, bengala esquecida numa mão conduziria sua cegueira pelas ruas, a sanfona velha jogada nas costas e os olhos que vomitavam a história que não puderam ver. A  mão negra esticada a receber de bom grado o pouco ofertado. Mais do que pagar pelo encantamento momentâneo, ela queria tocar aquele homem para saber se sonhava. Apertou-lhe a nota de baixo valor contra a mão estendida, e sorriu ao perceber que era real. Ele desceu no ponto seguinte, Assum preto de gaiola em gaiola, a cantar e viver de sua própria dor. Ela do lado de dentro, observou-o tatear o coletado identificando o lucro obtido. O ônibus partiu, deixando para trás o senhor cego e aquele momento. A vida era difícil, a cidade encantava e oprimia, o ônibus era imundo, mas ela sentiu-se maravilhosamente bem, e o celular que lhe levaram pareceu infinitamente pequeno perto do que ela tinha ganhado aquela manhã, motivo para cantarolar o dia inteiro:

– “…Well, your faith was strong, but you needed proof…”

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