De volta

Tinha as mãos na cabeça e os pés dançando. Ganhou a plateia no primeiro samba. Os olhos baixos conferindo o chão. O riso sugerindo vontades mal escondidas. A boca cheia de um vermelho agudo. “Não, não tô de batom”, assim como quem diz nada, quase clemente, fazendo sala pra falta de assunto. O chão não ensaiava resistência alguma. Era simples: os pecados confessados na ponta dos dedos, a absolvição antes da culpa e a penitência medida em metros de suor ensopando as flores do vestido. Tirava o cabelo das costas, exibia os ombros, expunha os pelos beirando a nuca, as escápulas, os ossos pequenos. Não se cansava. Lancinava os lábios tentando constranger tanto agrado, conhecia os desvios que levavam à intranquilidade.

Então o tempo ali passava diferente. A luz era tragada pelo rastejar daqueles contornos mal definidos.

Era o caso observar de longe, esperar o barulho baixar, conspirar alguma trama que parecesse casual. Quem sabe um movimento inesperado, tomar ela pela cintura antes que escapasse, antes que mastigasse os olhos de outros.

Voltou pra casa resignado. A luz amarela insinuando mais que iluminando as ruas de pedras antigas. Crescia uma expectativa a cada dobrar de esquina. O ar ia parecendo mais grave a cada passo mais perto de casa. Rareava a respiração descendente. A agonia estampando o rosto moribundo, pressionando os lábios, conferindo aos olhos vastidão em desespero.

Avistou ainda longe que a luz do poste que garantia a chegada sem sustos à casa revezava ambígua piscadas ligeiras e empenho em turvar o redor. Enquanto alcançava as mãos trêmulas sobre o cadeado, sentiu um bafo quente lamber a nuca. Sentou ali mesmo. Ao pé da porta aberta.

“Voltei”, ela sussurrou. E entre um riso pequeno e outros truques baratos, soprou mentiras irrecusáveis ao pé do ouvido. Ateou enredos impossíveis, obrigatórios. Ele assentiu a tudo como se ela nunca tivesse calado.

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4 comentários sobre “De volta

  1. Belo texto Leo.
    Seu texto é como se fosse uma narração. Cada palavra eu imagino o que está acontecendo, detalhes minuciosos que deixam o texto rico.
    Parabéns.

  2. Meu eterno “não entender o que leva à descaração e o que leva a aceitar a descaração” deixou a magia do texto borbulhando na minha cabeça.

  3. Palavras engatilhadas como os vagões dos trens em tranquilidade
    Passam desenhando os pensamentos da gente que lê,
    Como disse ela.
    Bala.

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