São José também cantou

_ Acooooode, São José sumiu!

O grito cortou o vilarejo, numa manhã de 18 de março de algum ano esquecido. A maleita ocorreu um dia antes do dia do santo. A procissão toda pensada na riqueza dos detalhes: o andor seria ornado com gerânios, margaridas, rosas; várias crianças seriam vestidas com batas claras, asas de filó e plumas; vários cânticos de cor.

_ Roubaram, só pode.

Sentenciou aquele de frases óbvias, que sempre tem em qualquer situação.

O padre passou mal e foi levado às pressas para a sede do município e as beatas desatinaram a chorar, rezar terços e proferir mil promessas. Os homens saíram em diligência à procura do malfeitor. E toda a vila se mobilizou naquele dia estranho.

Alguns metros da igreja, um moço de trajes anacrônicos dava piruetas e vagava em direção aos roçados: rasgou os espantalhos, entupiu as covas para a semeadura do milho e do feijão do dia posterior. Gargalhava, zombava, cantava. Os poucos que o viram, julgaram que poderia ser o tinhoso, dado aos modos e as roupas. Os que eram menos apegados às questões divinas, julgaram que era um maluco que tinha chegado ao vilarejo. O mais curioso é que ninguém ousou perguntar nada ao moço.

Na manhã seguinte, a estátua reinava absoluta sobre ao altar. “Milagres, glórias, aleluias” e mais rezas e cânticos.

Nem os mais reparadores e detalhistas perceberam o semblante mais leve na face do santo. Por algum motivo desconhecido, anos depois uma canção popular iria afirmar que “São José também cantou”.

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