A outra

Sentadas de frente uma para outra, miravam-se: uma congelada, com expressão de leveza, a outra distante, com gestos pesarosos. Existiam e não existiam, estavam e não estavam. Não eram. Como chegaram até ali? Onde se distanciaram?

A pesarosa pousou uma mão no seio esquerdo e a outra cabeça: vazios. Olhou para a outra que trajava apenas um biquíni colorido e longas madeixas que mais pareciam o arrebol. Se demorou admirando: seios firmes, duros, redondos. Sentiu inveja e logo cansou de olhar. Sentou para parar de sentir inveja. O cansaço não teria solução.

Ensaiou um choro, mas não tinha nenhuma história nova para o pranto. Chorara por amor, por saudade, por medo e nos últimos anos por dor. Mas como se acostumara a fazer nos últimos anos: teimou, engoliu seco. A mulher de expressão leve continuava congelada, olhando, sem atrever esboçar o que pensava.

Abriu a primeira gaveta da cômoda e pegou dois lenços: um amarrou na cabeça e outro cobriu a outra, não a veria mais. Abriu a segunda gaveta e vestiu o último riso, iria sair para comprar mais.

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