receita para um poema (ou, sobre a morte de Bruce)

Um poema que se preze não pode ser esperado ou insistido. O bom poema é aquele que nos pega de surpresa, e de tão inesperado, se assemelha à um vomito que não se pôde conter, depois de uma noite de fome e álcool. A estética não deve ser algo com que se preocupar. Ela deve ser resultado do que está escrito, e não o contrário. O tema pode ser qualquer coisa, e também pode ser nada. Você pode falar de palmeiras onde sabiás resolveram tolamente cantar e ser um chato, e mesmo assim você é poeta. Você pode falar da pedra que encontrou em seu caminho e ser chamado de gênio, tal qual o chato, você é poeta. Na verdade, não há nada de grande ou extraordinário em se fazer poesia, vez ou outra é deveras custoso. Escrever é como uma maldição. Você escreve porque precisa disso para se significar algo, não há como parar. Mas o ruim de ser poeta, escritor, ou um projeto mal sucedido de Bukowski, é que as pessoas sempre estarão esperando que você diga algo, mesmo quando você não quer dizer nada. Parece aos outros que há uma constância de algo dramático e sedutor a envolver a vida de quem escreve, e por isso se exige da mula das letras que conte algo novo, pior e mais denso do que ocorre com a vida dos demais. Seus sentimentos sobre a fome na África, a crise política do país, sua namorada louca, a morte dos pais, qualquer coisa que o escritor disser será um alívio para as dores e frustrações dos “comuns”. Bem, hoje não tenho nada a dizer ou fazer sobre a fome na África, hoje não estou preocupada com a situação política do país, não tenho problemas afetivos e meus pais estão vivos e saudáveis, hoje não há nada aqui para fazer sonhar, refletir ou rir. Meu cachorro morreu, foda-se o resto. Não estou interessada em falar a respeito. Chorei o necessário, minha mãe sempre me alertou o quão não confiáveis são as pessoas que choram demais. Ri um pouco, na verdade, ri bastante. Conversei sobre passarinhos, futebol, cachorros e sobre o quão eu pinto mal. Andei, li, estou vivendo. Bruce não era o melhor cachorro do mundo, mas era meu cachorro e por isso sofro, mas sem auto piedade, tão pouco com a piedade alheia. Hoje não estou preocupada com meus imperdoáveis erros de pontuação, estive pensando em como esses quase oito anos ele me fez feliz, e o quão ele foi feliz também. Na verdade, estou aliviada por ele não sofrer mais, nem ter aqueles ataques que destroçavam sua imagem de cão forte e imponente que ele sempre foi. Embora sua ausência ainda doa em mim, depois passa, tudo é findo. E um dia, assim como Bruce, eu serei apenas fotografia e memórias de alguém.

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