Os ratos

Um rato correu para o canto, não é comum ter ratos em apartamento. A miséria de sua alma atraía bichos e gentes mesquinhas. Era tarde demais para querer voltar e ela não queria voltar. O peito preenchido de vazio tentava rememorar o ponto em que os dois se perderam. Ela sofria. Uma vez ouviu que tentar jogar com o amor era querer perder a aposta. Teimosamente ela jogou, agora era hora de pagar. Passava da meia noite, e é na madrugada que os fantasmas escravizam os homens, não conseguia chorar, tentou então sorrir, tão falsamente que não se convenceu.  Havia acostumado a falhar e  a não se entender, a noite seria difícil.

Do outro lado da rua, escondido entre as cortinas, ele a observava. Mudara-se para aquele lugar há duas semanas, as janelas de vidro haviam lhe dado o indiscreto passatempo. O apartamento em frente, tão cinza e vazio, era iluminado pela presença morena daquele ser. Era uma mulher diferente, de gestos simples e olhar confuso, o que escondiam aqueles olhos castanhos? Sua beleza comum, daquelas que não se entendiam feias, tinha resolução e verdade incomumente marcantes. Ela era um ímã, polo oposto ao seu, polo oposto ao mundo talvez, a andar pela sala de pouca mobília despreocupadamente nua, enigmaticamente indecifrável, preenchendo as madrugadas do homem solitário com sua confusa presença.

Cachorros latiam na rua, havia uma hora depois da meia noite em que todos os cachorros latiam, mau agouro. Ela abriu a janela e deixou-se ventar, percebeu que o vizinho do prédio ao lado a observava, deu-se conta dos peitos nus mas não teve vergonha. Olhou para baixo, a vida parecia mais segura e melhor com as ruas vazias. Havia tentado escrever em vão, tudo em si era a amarga dor da separação, sua pele parecia cortar e se abrir ao rememorar a imagem dele. Olhou para baixo mais uma vez, seria mais simples acabar assim? Se jogar seria fácil, não haveria dor e, caso houvesse, certamente seria menor que a dor que sentia naquele momento. Fez menção de sentar-se a janela, a interrogação no rosto do outro a lhe olhar do outro lado da rua a fez hesitar, o suicídio é algo solitário, não pode haver espaço para platéia. Desistiu de seu intento e deu um leve sorriso para o homem que tanto a olhava, ele retribuiu. Percebeu que ele tinha olhos verdes acinzentados que gritavam em seu corpo, olhos que ela queria conhecer de perto. Sentiu em seu peito que a vida continuava, que nada valeria muito a pena mesmo e por isso devia-se sempre insistir em existir, existir até enlouquecer. O corpo pesou de sono, manteve a janela aberta, deitou-se num colchão no chão. Quando o sol batesse pela manhã em sua carne nua, seria o renascimento da fênix, não teria mais pesadelos, não era necessário chorar. Iria ao prédio em frente convidar os belos olhos para um café ou vinho. Os ratos roeriam seus sonhos.

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