Transporte público

Olhava impaciente para o relógio. Duas vezes no mesmo minuto. Transporte público é um teste de paciência diário, bimodal. Uma hora e meia, foi o tempo que o coletivo demorou daquela vez, até que ele apontou na rua, causando o alvoroço habitual. Pessoas digladiaram-se após alguns minutos, e contrariando todas as leis da física, o ônibus arrastou.

Rafaela ficou em pé, como sempre. Após passar pela catraca, guardou os quinze centavos do troco no porta-moeda que ficava solto na bolsa de couro falsificado e seguiu seu trajeto humilhante. Sentia cheiros de todos os tipos, sons de todas as tribos, mas o que mais a incomodava eram os homens roçando na sua bunda avantajada. Sentia raiva, nojo e vontade de chorar, enquanto equilibrava-se segurando os cadernos e livros da faculdade após um longo dia no trabalho. Nem sempre uma boa alma se oferecia pra segurar.

Todos os dias, ao chegar a casa, ela se esquecia no chuveiro. Sabia que não era bom para o meio ambiente, mas precisa se sentir limpa após todos os esfregões e encontros forçados no ônibus. Às vezes chorava, outras apenas sentia apenas a água correr o corpo. Depois, depositava as moedinhas do troco no cofrinho e se jogava no sofá de olho na TV. Não sentia esperança, fé, orgulho.  Apenas matava o tempo para o outro dia, onde tudo seria igual ao anterior.

Mas tem dias de decisões. Um dia, que não carece de data ou mês, Rafaela acordou decidida a se fazer feliz. Quebrou o porquinho. Perdeu alguns minutos na contagem das moedas. Vestiu uma blusa qualquer, com um jeans novo. Prendeu o cabelo em um rabo de cavalo. Saiu.  Desfilou pela calçada até o ponto de ônibus, e como sempre esperou sentada com as pernas juntas, descontraídas, enquanto a multidão se aglomerava no ponto. O ônibus surgiu após a ladeira, depois do atraso rotineiro, que sucedeu a guerra também rotineira da entrada. Rafaela continuou sentada. E após o ônibus arrastar, levantou até a beira da calçada e acenou para um táxi.

– Praça Pio XII, e, por favor, mantenha o ar-condicionado no mínimo, esqueci meu casaco.

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2 comentários sobre “Transporte público

  1. Com certeza este foi dia em que Rafaela apenas espiou a vida de ângulo mais rico, e não pensou em mais nada além da alegria de poder ser rica…

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