Abraço

Os olhos marejados turvavam a imagem confusa da cidade engarrafada. Tinha que sair dali. Abriu a porta do primeiro táxi livre que achou e despencou sobre o banco traseiro.

– Dirige.

– Para onde a senhora vai?

– Não sei, apenas dirija pra longe daqui. Me tira dessa confusão, qualquer lugar serve.

– Me desculpe mas, a senhora está bem?

-Não. Bem eu não estou, mas tenho dinheiro para pagar qualquer corrida, caso seja essa sua dúvida.

O taxista deu um meio sorriso pelo espelho retrovisor, assentiu com a cabeça e pôs-se a cortar os outros carros em rápidas ultrapassagens de um percurso incerto. No banco de trás, ela sentiu-se segura para chorar mais uma vez.

– A dona tá precisando de algo?

Ela não ouviu. O pensamento rememorava a marcha nupcial que não tocou, aqueles olhares de compaixão pesavam sobre ela aumentando a dor. Pena: o mais vil e vão dos sentimentos. Agora ela estava solitariamente segura, longe dos carinhos e afagos compadecidos que  ela não pediu, que ela não quis. Só ela e aquele motorista desconhecido num caminho que ela não conhecia. Ele diminuiu a velocidade e virou-se um pouco, parecia falar algo que ela não compreendeu.

– Hã?

-Perguntei se a dona não tá precisando de algo, se não quer ir pra um lugar específico ou conversar, sabe, às vezes ajuda.

Não respondeu. Soluçou amarga um pouco de dor e ódio.

– É, a senhora não está bem…

– E o que é que você sabe de mim? Como pode dizer se eu estou bem ou não?

– Não é preciso saber muita coisa pra notar que uma mulher bonita, sozinha, vestida de noiva e chorando na rua no dia dos namorados não está bem…

Ela calou, ouvir aquele estranho falando daquele jeito a fez se sentir ridícula. Olhou para ele, ele  não era jovem, mas também não era velho e chegava a ser razoavelmente interessante. Não era feio, um tanto quanto másculo e gentil, o que para ela era estranho, até então todos os taxistas eram velhos ou feios, sempre intrometidos, costume da classe. Ela enxugou os olhos na renda francesa que vestia seu braço maculando o pano branco de falsa pureza, há muito maculada.

– Como o senhor se chama?

– Senhor está no céu, meu nome é Luís.

– Então Luís, que você sabe de amor e psicologia para querer se intrometer assim na vida de quem não conhece?

Ele sorriu deixando-a desconcertada e arrependida pela rispidez com que havia falado.

– A dona tem razão, não entendo de psicologia e pouco sei de amor. Mas como todo mundo, eu já fui chutado e a senhora tá com cara de quem levou um chute daqueles.

– Tatiana.

– Hã?

– Meu nome é Tatiana, e sim, eu fui “chutada”. Eu ia casar, ele não é muito dado às convenções, não foi e agora eu estou aqui.

– Ele é um babaca. Não se deixa uma mulher esperando, mulheres não foram feitas para esperar ou serem largadas. Nós homens que devemos ser deixados, é assim, o certo sempre foi assim.

– Certo? Existe certo e errado no abandono? Melhor, existe certo no amor? Alguém sempre acaba chorando e sozinho, isso não é certo.

– Não é. Mas precisamos disso pra ser um pouco mais gente.

Ela sorriu. Olhou para a janela e viu o mar refletindo a lua cruelmente bela. Sentiu uma vontade imensa de descer, correr pela praia e se atirar ao mar e afogar tudoo que sofrera.

– Luís, pára. Eu vou descer aqui, me diz quanto ficou a corrida.

– Nada não.

– Nada?

 – Nada. A corrida ainda não terminou,vou descer com a senhora. Tá tarde, essa não é uma cidade para moças ficarem sozinhas pela praia no meio da noite. Não me perdoaria se algo acontecesse.

– Mas e se eu não quiser sua companhia?

– Essa não é uma opção.

Ele parou o carro, ela desceu e pôs-se a caminhar rapidamente em direção ao mar. Luís seguiu calmamente seus passos, era uma noite clara de fingido inverno. Ela parou contemplando o mar escuro que engolia vorazmente a lua clara. Ele parou ao seu lado e pôs-se a contemplar também.

– Bonito né?

– Estranho.

– Estranho?

– Estranho. Não lhe conheço e aqui estamos, juntos a admirar o mar.

– Segura em minha mão que você conhece.

Ela sorriu sem interromper a contemplação. Quem era ela? Quem era aquele estranho? De nada estava certa, tudo parecia um sonho confuso. Um vento soprou gelado, fazendo com que seus músculos se contraíssem de frio. Ele passou um braço em volta dela, aquecendo-a contra seu peito num abraço inesperado. Ela deixou-se ficar ali: Dois estranhos, sem nenhuma razão, a admirar o mar.

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