Sobre silenciar e outras maldades

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Tudo que escrevera até ali perdera cor, razão, sentido. Nuvens espessas nublando o verbo de saudade. Não lembrava mais quanto tempo fazia que havia desistido de tentar. Não lembrava mais quanto tempo fazia que a cama era agora sempre fria. De lugar de descanso, mortalha de caçar sonhos cada vez mais raros. Foi definhando. Primeiro parou de escrever. Depois de sonhar. Depois de comer. Foi rápido, súbito, espasmo de paralisia. Ia morrendo de ausência. Ela tinha levado embora seu sopro, seu palavrório desenfreado, sua quase gagueira ansiosa de tanto que derramava de letra. E tudo que escrevera até ali perdera a cor, razão, sentido. Se arrastou até a pia lotada de louça de quando ela foi embora. Não acentuava mais nem pensamento. Abriu o pote de café, raspou metade do que usava pro café forte que ela pedia. O chão frio acumulava a poeira denunciando o tempo que ela o deixara. Passos lá fora. A chave girou na porta. Ele não conseguiu enxergar bem, a luz o impedia.

– Anda distribuindo uma cópia da chave pra cada uma das vagabundas que vem aqui?

– Não vem ninguém aqui.

– Então para de tentar me enxergar.

– Fecha a porta.

Ela fechou a porta e ele percorreu cada curva que conhecia tão bem. Ela tinha a cara borrada de choro negro. A maquiagem que usava quando saiu.

– Que cheiro horrível é esse?

– É o café. O que você tanto gosta.

– Cheira a chá velho.

– Por que você foi embora?

– Por que eu voltei? É só o que eu quero descobrir.

– Por quê?

– Porque eu não tenho dignidade. Se eu tivesse não estaria aqui.

– Tá com cara de quem me odeia.

– Você é um covarde.

Ela tirou da bolsa tudo que ele escrevera pra ela até ali. Apertou com força na mão os papéis de todos os tamanhos enquanto chorava em silêncio uma dor que ele escutava, conhecia.

– Nunca mais escreve pra mim.

– Não consigo.

– Covarde. Covarde e cruel.

– Não consigo escrever mais nada depois que você foi.

Ela abaixou de cócoras e soluçou desespero num último choro. Ele abriu a janela, foi até a pia, tomou na mão uma caneca esmaltada, encheu do café ralo, sentou no chão e ofereceu pra ela. De ela pedir que ele calasse, morreu nele o verbo “querer”.

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Um comentário sobre “Sobre silenciar e outras maldades

  1. Esse me deixou de garganta trancada… que nem choro que não permitimos sair… Uma pancada, uma dor… Como a dor pode ser tão bela?!

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