Pensando em Bukowski

À Cassia.

Era tarde demais pra voltar para casa. Olhou o quarto, tão escuro, tão vazio e tão seu, desejava que fosse seu. Papel e caneta na mão, na cabeça um poema a despertar, na cama um corpo adormecido ressonava as alegrias de outrora. Seria realmente feliz? Estava tão acostumado ao riso sarcástico dos olhos, escondendo assim as dores da alma, desconfiar da alegria alheia deixara há muito de ser hábito, era necessidade.
Ela remexeu-se em seu sono de anjo, deixando à  mostra o peito de deusa, ele sorriu. Era linda, intensa, jovem e louca demais para ele. ” Sou sua enquanto me quiser.” – Foi o que lhe disse no primeiro e inesperado encontro, e era o que tinha acontecido desde então. Quando ele não estava ocupado demais escrevendo, ou solitariamente matando a alma com vinho e um espelho, ligava pra ela e era só atravessar a cidade para cair na cama da aspirante  a escritora de olhar atrevido. Quando a solidão gritava necessidade ela invadia seus pensamentos. A pequena aparecia com seu belo par de pernas envolvendo o corpo gordo e cansado do velho que, sempre de ressaca, masturbava-se freneticamente sob o imaginário daquela cena. Não havia como negar, ela era seu amor daquela temporada. Agora ele ali, com cuecas que lhe deixavam ridículo, bebendo diretamente da garrafa, caneta e papel na mão e na cabeça um poema que não queria acordar. Precisava daquele poema. Precisava matar logo aquele amor. Era isso o que elas duravam: um poema ou dois. As mais fantásticas e intrépidas haviam atingido quantidade maior, mas nunca o livro inteiro. Matar amores era uma forma estranha de dar sentido a sua ameaçada existência, já que ultimamente andava com manias de suicídio e acentuada depressão. Quão mágico seria ele poder escolher como e quando morrer, mas os adiamentos, os porres e as inventivas paixões abriram caminho para uma morte simples e sem significados imortalizantes na agonia de uma leucemia mal encomendada.
Papel e caneta na mão, ele que sempre escrevera sem pudores, restrições, regras ou preocupações de estilo, via-se rendido à respiração tranquila daquele ser a dormir. Riu de si mesmo, dessa vez gargalhou, não pôde se conter diante da constatação: ela duraria bem mais que um poema. Sua risada a fez acordar.

-Perdão, não queria lhe acordar.

-Não precisa pedir desculpas. Estava escrevendo?

-Tentando…

-Tentando? Mas você não é de tentar, escreve quando vem.

– É isso, tem um poema que quer vir, eu é que não quero deixar ele chegar.

-Não entendi.

-Entenderá quando de fato for uma escritora.

Ela riu. Levantou, vestiu seu roupão azul e foi beijá-lo.

-Está com fome?

-Um pouco.

-Quer que eu lhe prepare ovos?

-Sim, gostaria…

-Duros, não é mesmo?

-Sim, duros. Mas deixa os ovos pra depois, vamos agora arrancar esse poema de mim.

Jogou-a na cama. Ela duraria mais que um poema, mas não tanto assim.

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