Relento

A chuva bate forte na janela e borra de lágrima o grande olho de vidro. Não faz frio, mas ventam ruídos e agouros: “algo vai errado no mundo”. Algo deveria estar errado no seu mundo, mas está tudo certo: “e a chuva ainda vai molhar meu jardim”.

Olhos fora de órbita das noites insones, dos dias dormidos e de ataques do coração: medo, despedida e saudade. Seria mais fácil se fosse hipertensão, meio comprimido de captopril em jejum resolveria. Não carecia de médico. Só de caminhar e ele caminha impaciente.

Alisa um dos gatos de afagar solidão e dá a mão para cadela mordiscar, a retirou num reflexo: “essa bandida tem os dentes afiados”. Ri. Passeia os dedos nos livros da estante, por todos os livros como criança passa a mão nas grades dos passeios das casas. Para em um: lê apressado. Suspira um poema e corre para alisar as teclas do computador.

A chuva agora borra os grandes olhos pretos. Para. Grita algumas palavras no violão, também preto. Viaja nos acordes, aplaca a dor e encerra. Tranca a porta, passa o cadeado no portão.

Imagina um até logo, força um sorriso, mas chove dos olhos de novo. “Vou escrever a terra de gente sonhar”, sentencia mentalmente. A mulher o espera de riso frouxo e o cristo de braços abertos.

Na mochila uma caderneta, a passagem de ida e duas canetas. Sabe que é bom, ele escreve.

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