Trapo – a coragem (ou vai te embora)

Manoel não teve tempo de perceber a manobra de Anamaria. Seus olhos nunca fechados por completo vacilaram em segundos estendidos, perdido em abandono numa boca trêmula. Ela pôs a espingarda entre os corpos e o afastou, olhos de causar fuga em bicho.

Manoel recuou alguns passos, imaginou a vida que sempre teve e a que nunca teria. A que nunca quis ter até ela aparecer. Anamaria apontou a espingarda. O cheiro de chuva engrossava lá fora. “Ela disse que ia cair chuva”, ele pensou procurando a arma na cintura. A arma ficara esquecida em cima da cama aquela manhã, num coldre que o avô lhe dera enquanto dizia “essa é tua herança, tua salvação”. Passou pela cabeça tirar a arma velha das mãos de Anamaria, mas desse jeito tudo acabaria igual a como foi a vida inteira. A vida de antes. Sentiu uma pressão na cabeça, coceira nenhuma.

– Vai te embora daqui.

Anamaria olhava através dele. Podia ver através de dois futuros a caatinga de boca aberta esperando a chuva cair. Manoel não se movia. Os olhos do homem que a tomara sem licença, muita ousadia, não cheiravam a medo. Não havia medo algum. Era o primeiro que ela conhecia que não caía de joelhos ao ver de perto um cano apontando as tripas. Como ele não se movia, ela avançou, dedo no gatilho, vestido amassado, e colou o cano da arma no peito de Manoel. Ele olhou para o encontro entre o cano e sua carne magra. Voltou os olhos para Anamaria.

– Atira.

Ira em olhos de lágrima.

– Vai te embora daqui, homem.

Manoel não saía dali. Ela pôs alguma pressão no indicador, depois lembrou do menino que ele pode ter sido. De como ele viveu até ali. O dedo afrouxou. Ela o  empurrou com o cano para fora da casa. Ele estancou no batente. Ela pôs nos braços o restante de forças que guardava fazendo-o recuar alguns pares de passos curtos. Ela seguiu no batente, espingarda na altura do peito. Se desesperou.

– Vai te embora daqui ou tu não vai mais conhecer palavra nenhuma!

Manoel não iria.

– Vai agora! Vai!

Anamaria chorava, sofria, soluçava. Apertou o dedo uma vez no gatilho. Pelo som que ouviu sabia que precisava dar outro. Ouviu um som chiado se aproximando. Abriu os olhos. Manoel seguia lá, imóvel. A chuva despencou sobre os ombros dele, abafou a poeira que havia levantado no primeiro tiro. A água escorreu no corpo de Manoel, e o vermelho ralo singrou a camisa na altura do ombro direito. Ele olhou a cor que nunca conhecera no próprio corpo, “Manoel Matador, o homem que nunca sangrou”, era a alcunha da lenda que se espalhava em terras secas. Outra vez ele procurou a arma na cintura. O chapéu esquecido no chão da sala da professora que atirava.

– Tu vai pedir perdão.

Deus às costas e foi embora. Anamaria caiu de joelhos, soluço e arrependimento. Trovejou.

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Um comentário sobre “Trapo – a coragem (ou vai te embora)

  1. pequenas coisas te dizem que a vida vale a pena. o sorriso certo da sobrinha linda. o aceno do chefe a um diálogo bem finalizado. a paz dos pais diante do orgulho de ver a filha – eu – realizando o que quer.
    e saber que quem escreveu isso é meu. ainda que só um pedaço, ainda que só o tanto que ele quer me dar. meu. meu. meu.
    o tanto todo outro pode ser do mundo. deve.
    Leo é pra ser compartilhado. divulgado. compartilhado. merecido.
    (com restrições, que sou braba mesmo, não é folclore! Rá!)

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