Pequenos masoquismos sentimentais

Sentada sobre o parapeito da janela a observar o mar, nada lhe parecia mais importante naquele momento. A lua endiabrada sorria-lhe com deboche, mostrava-lhe toda a graça que suscitava cobiça, enquanto ela, tão apagada e esquecida, rasgava o último poema, deixando que o vento carregasse nesses pedaços o peso de seu coração. Suas pernas displicentemente balançavam no ar, queria tanto poder voar, quem sabe apenas atirar-se e se deixar cair, mas o primeiro andar amedrontava-lhe, certamente não seria o fim, seria apenas um triste recomeço condenado à cama, cadeira de rodas ou algo similar, alem do que, queria viver. Não que gostasse de viver, na verdade odiava. Mas, como tudo que detestava na vida, era prazeroso insistir, valia à pena se machucar, cutucar a ferida para vê-la sangrar. Deixou-se então balançar e sentir a brisa salina. Estranha essa mesma brisa, que corrói a cal dos prédios, deixar-lhe intacto o rosto, não macular sua pele, ferir-lhe o corpo. Pensou no que acontecera, pareceu-lhe bobagem, como pareceram bobos o poema, a expectativa, a frustração, o ódio e a ferida. Um pequeno corte para cada lágrima derramada, um pequeno corte que ninguém pudesse enxergar, um pequeno corte suficientemente dolorido para aquietar-lhe a alma, suspender o choro, pintar de rubra cor a delicada pele abaixo do ventre. O ardor das agulhas a perfurarem-lhe era levianamente prazeroso, pequeno ritual há anos cultivado. Lembrou-se do que lhe dissera sua mãe, sentiu as lágrimas ressurgirem, constatou ser verdade, benção e maldição. “Ninguém, além de mim, amar-lhe-á verdadeiramente.”, afirmara o rosto firme e terno da mãe. Precisava beber.  Engoliu de um só trago. A amargura da bebida adocicara a língua solitária, precisava de mais, sedenta da ressaca e do esquecimento. Ao voltar para a janela, copo na mão, deu de cara com o espelho. Não era feia, sorriu. Os olhos marejados davam-lhe uma graça infantil. Notou que a tristeza trazia-lhe um acento a beleza escondida em camuflado sorriso. Sorriso que aprendera a dar quando tudo dentro de si eram dor e sofrimento. Desde cedo soubera atuar. O mundo era de quem escondia a dor. “Engole o choro, menina!” Não se pode confiar em gente que chora demais.  Lá estava a lua, ainda cheia e faceira de si, certa de amantes a admirar-lhe almejando o intocável, e ela ali, olhando a lua, desejando o mar, balançando-se ritmicamente tocada pela brisa, sentiu-se um pouco lua, o álcool lhe trouxera bruxo encanto, sorriu, o riso não era falso, nunca era na solidão, rememorou canções esquecidas, deixou o vento invadir-lhe o peito, já não era mais brisa, era furacão a varrer dentro de si, gargalhou sobre o mundo, ela agora, tal como o satélite terrestre, estava cheia , coração vulcânico, o que houvera não mais sentira. Acontecera tantas vezes. Apertou a ferida recém-feita, que mais importa? Deixa passar. O sofrimento dura menos que a noite. “Engole o choro, menina!” Mostre-se para a Lua, invejosa no firmamento por não poder te tocar. Um Valium, talvez dois ou três.

Dormir ainda é o melhor remédio para o pesadelo que é viver.

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