Tango para três

-Sempre é tarde demais para voltar atrás.

-Não deveria ser assim. Arrepender-se deveria bastar.

-Não basta. Nunca basta. Na boca de falso perdão sempre haverá algo de orgulho, um “quê” de superioridade a julgar quem errou. Aprenda, um erro só é real quando descoberto. Antes disso é apenas segredo, cumplicidade imoral.

-E nós?

-Que tem?

-Como ficaremos?

-Nunca houve “nós”, não há então um futuro para pensar.

-Nunca houve nós? Como assim “nunca houve nós”!? E tudo o que vivemos? E tudo o que arrisquei, tudo que eu perdi por você? Você não pode simplesmente fingir que não foi nada e me deixar assim!

-Acalme-se! Você está gritando, todos estão olhando pra cá. Entenda, meu bem, nunca houve nós sem Ele. Ele era a cola que nos unia, agora que você estragou tudo com essa sua mania imbecil de crise de consciência, não há mais por que continuar.

(Soluços)

-Não chore. Eu amei você. Deus sabe que verdadeiramente amei você. Só que antes de você eu o amava. O que tinha entre Ele e eu era forte demais para que você estragasse tão tolamente.

-Você não entende! Não podia ser nós três. Entre Ele e você, eu te escolhi.

-Nunca pedi para que o deixasse. Você tomou essa decisão sozinha, de forma egoísta e imatura. Aliás, Ele já havia me dito isso, o quanto você era egoísta e imatura. Coisa de menina mimada que sempre teve tudo.

-Ele dizia isso?

-Dizia.

-Por isso que começou a sair com você?

-Por que isso agora? Você nunca se interessou em saber o que havia entre nós.

-Agora eu quero. Tenho esse direito, Ele é meu marido.

-Não mais. Você mesma acabou de dizer que o abandonou para ficar comigo.

-E já me arrependi. Perto dele, você não é ninguém.

-Tarde demais. Está assim porque ficará sem os dois. Você é tão mesquinha, tão segura de si que acreditou que seu planinho iria dar certo. Agora que percebeu a merda que fez, finge arrependimento. Mas esquece, você e Ele já era!

-Não! Ainda não. Ele não saiu de casa, eu tenho chance, já o perdoei aquela vez, Ele me deve isso. Ele há de me perdoar.

-Olha seu egoísmo outra vez. Ele não lhe deve nada, o perdão não é uma troca, será que você consegue entender isso?

Não respondeu. Jogou o dinheiro na mesa e saiu. O seu passo apressado forçava o pouco vento que existia na tarde de sol a embaraçar os longos cabelos que surravam a cintura. O pensamento correndo além dos passos rememorava o que a levou até ali. Cinco meses haviam se passado desde que descobrira a traição do marido. Não fez escândalo. Quando o detetive que havia contratado lhe informou local e horário dos encontros e entregou-lhe a chave do apartamento, conseguida através do porteiro do condomínio que se deixava subornar barato, não sofreu. Dirigiu calmamente, subiu as escadas do local, que lhe pareceu deveras pobre, sem pressa. Sua mão deslizava pelo descascado corrimão tentando entender o que havia levado Ele até ali. Chegou ao pé de um apartamento de porta tão humilde quanto as outras, conferiu o endereço. 302. Era ali. Um lapso de memória quase a fez tocar a campainha. A mão firme girou a chave calmamente na enferrujada fechadura. Entrou. Como num portal, ao atravessar a porta parecia estar em outro mundo. Móveis e decoração de fino bom gosto lembravam as casas das boas famílias, às quais estava tão acostumada. Apenas os gemidos no quarto de porta despreocupadamente entreaberta destoavam do local. Pôs-se parada a espiar o que se passava. Fez de forma tão silenciosa e calma que os amantes não perceberam sua presença. Não teve nojo. Não teve raiva. Aquele ser incrível tomando posse do que era seu, causou-lhe convulsões de inesperado calor. O cabelo curto, o suor marcando as costas e a curva da cintura, a boca entreaberta em busca da boca dele. Ela era linda. Entendeu a traição. Quis ser aquela mulher, quis ter aquela mulher. Um tango tocava no rádio antigo: “Por una cabeza”. Findado o ato, a cabeça dele pendeu pro lado. A viu.

-Laura, é… Por favor…

-Não explica nada, Paulo. Se veste, vamos pra casa.

Desde aquele dia o pensamento dela era pra outra. A amante ruiva de cabelos curtos não lhe saia da cabeça. Perdoou o marido, ou ao menos fingiu perdão. Mas aquela ruiva…

Investigou, seguiu, um mês depois era ela no apartamento tomando o lugar de Paulo. O mesmo tango, a mesma felicidade. A boca que se abria procurava agora a sua, tão querente quanto vira. Envolveu-se de tal modo que o marido não lhe parecia mais necessário. Terminou o casamento sem muita explicação. Agora a frustração e a dor da rejeição a fizera voltar atrás. Na garganta a contenção de um soluço. Na boca a mudez de uma palavra: “perdão”.

Havia permanecido no bar vendo a outra partir. Fumava um cigarro enquanto telefonava.

-Alô?

-Paulo, tudo feito. Ou melhor, desfeito. Laura nesse momento está indo para sua casa, cheia de arrependimentos.

-Ah, minha querida, muito obrigado! Você não sabe o quanto isso é importante para mim.

-Claro que sei, benzinho.

-Amanhã no mesmo horário?

-O disco de Gardel te espera.

Ele sorriu.

-Agora é melhor você desligar, ela já deve estar chegando.

-Ok. Mais uma vez, muito obrigado. Beijo.

Ela acendeu outro cigarro ignorando o aviso que proibia o fumo. Conferiu o batom vermelho no pequeno espelho do estojo de maquiagem. Correu os dedos pelos cabelos. Tinha que estar em casa às 19:00 para acompanhar o marido à festa do colégio onde estudava o enteado. Ainda era cedo.

-Garçom, gim com tônica!

O mundo é bom para quem sabe ser ruim.

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