Trapo – o começo (ou perdição)

Ela entrou sem olhar para trás. Manoel não saiu da frente da porta. Olhava para o vestido escorrendo entre os poucos cômodos: abrindo uma janela, colocando as coisas de professora na mesa, no quarto com a parede pintada de cor. Ela entrou no quarto e deixou a porta entreaberta. Havia um cheiro de futuro e flor no ar. Flores murchas ruíam num vaso azul em cima da mesa. E Manoel lá na frente da casa com olhos curiosos, inquietos, as mãos firmadas nas costas. Tremia. Da cintura para baixo ele tremia. Bateu os pés no chão como se tentasse se livrar do desaprumo. O vento da coragem pela primeira vez na vida desviava o curso ao se aproximar de Manoel, fazia uma curva inalcançável, e ele olhava para os lados procurando a secura de sempre. Uma coceira foi crescendo na nuca. Manoel atendeu. Mas a coceira aumentava. E ele olhava para dentro da casa havia um par de minutos, mas parecia que Anamaria se perdera em eternidade dentro do quarto de parede pintada de cor. E o pé do cabelo dele avermelhava. Uma coceira que não ia embora, que nunca viera antes. Não era de se coçar. Ia procurar a benzedeira: ela haveria de ter alguma folha para coceira nunca sentida.

Anamaria voltou para a sala cinco minutos de eternidade depois, o cabelo agora solto, as mãos para trás subindo o zíper do vestido. Manoel lá parado, coçando a nuca, mãos desarmadas em encontro nas costas largas. Ela olhou para ele em silêncio alguns segundos. A coceira aumentava, mas ele não se coçaria na frente dela, de jeito nenhum.

– Vai ficar aí até chover?

– Chover?

– É. Vai?

Manoel olha para o céu desacreditando de algum pingo no céu azul de arder.

– Mas num tá pra chover não.

Anamaria vai ao limite do sorriso contido no canto da boca fina.

– Entra.

– Licença.

Enquanto punha o pé no batente da porta, Manoel levava a mão à cabeça procurando pelo chapéu. E se deu conta, uma vez mais, que ele estava na outra mão. Olhou para a mulher acompanhando sua falta de eixo procurando o chapéu onde não estava mais desde quando a viu a primeira vez, a coceira coçando e ele resistindo. Ela foi até o fogão. Ele se amaldiçoou pelo aparvoar, o norte sumiu. Mordeu o lábio em penitência. Apertou as unhas contra a palma da mão para reforçar. Ele sabia. Era o fim da paz. E não escaparia. Teve mais certeza quando Anamaria, chegando ao fogão, jogou uma ameaça no ar que rareava, uma promessa, um convite ao desatino: com um movimento de ombro e pescoço jogou o cabelo para fora da curva. A nuca nua, o suor permanente, as costas dela em arrepio, com pelos finos escorrendo vestido adentro.

– Virou pedra?

Ela falou sem virar para trás. Foi só aí que Manoel se deu conta da paralisia: o pé do mesmo jeito no batente da porta. Tremia, suava, temia o futuro. Sabia ali que estava condenado. Tinha certeza que aquilo seria seu acabamento, sua perdição, o fim de seu gosto pelas outras coisas do mundo.

– Hein?

Perguntou sabendo exatamente dessa vez o que ela perguntava. Entrou e sentou na cadeira de encosto azul. Tinha cores a casa da professora. E ela fazia um café que cheirava forte. Manoel sentiu o cheiro singrando os pelos do nariz, sangrou de vontade. E a coceira não cessava. Foi o que o fez abrir os olhos. Aproveitou Anamaria estar de costas e obedeceu: a nuca já avermelhava.

– Você gosta adoçado?

Desde pequeno acostumado a não ter açúcar por perto, Manoel não desenvolvera gosto pelo sabor. Ao contrário, lhe dava ânsias.

– É.

Não foi capaz de falar nada diferente do que achava que ela esperava. Ela trouxe o café numa xícara esmaltada branca e se sentou na frente dele. Ele quase sorriu o pouco sorriso que tinha e levou o café saído do fogo à boca.

– Vai se queimar!

Ele sentiu a boca inteira ferver. E sorriu. Estava perdido.

– Não queima não?

– Já acostumei.

– A se queimar?

– A me per… É. Num queima mais não.

Ela abaixou o olhos. Ele deu um pulo e a levantou com o braço envolvendo a cintura dela num gesto. Ela assustou, mas não emitiu som algum. Ele a olhava rude. Ela ofegava. Ele apertou os lábios contra os dela em desespero. Manoel se abandonou. Foram se empurrando até uma mureta que separava a cozinha da sala pequena, quando os quadris de Anamaria bateram lá ela abriu os olhos. E buscou a espingarda enganchada num prego na parede. Manoel não teria tempo de pedir perdão.

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