Na corda bamba

Aquela corda balançava como um pêndulo até que cessou abruptamente seu movimento. O estampido da porta que se abrira e fechara de supetão se confundiu com um chiado tímido de uma chuva fina caída de nuvens de chumbo. Fazia um frio de cortar a carne e a tristeza era de lavar os olhos. Vagou.

Horas antes, nessa noite fria, ele acordou suado, tremulante. Não foi pesadelo, nem sonho, tampouco febre: era resolução. Levantou cambaleante, bêbado de decisão, se escorando nas paredes, com leve taquicardia. Arrastou-se até a cozinha, onde tomou coragem e água com açúcar.

Sentou-se na única cadeira de plástico da casa que ainda tinha ares de república estudantil: mobília antiga (móveis substituídos da casa da mãe e tias), alguns cartazes com o Che estampado, um violão encostado numa estante cheia de livros, cds e papéis com seus escritos: consolos de solidão. Alguns guias de viagem: tentativas de descoberta ou rotas de fuga? Uma corda amarrada no teto, a quebrar com toda juventude do ambiente.

Arrancou algumas folhas de um caderno, que curiosamente no cinza de sua capa, tinha um trecho escrito: “uma dor assim pungente não há de ser inutilmente”. Cinza poderia ser um sentimento, mas era apenas uma cor. Sua vida era cinza. Sua dor era pungente. A solução era sofrida.

Escreveu a mesma palavra nas diversas folhas e endereçou sua despedida às pessoas importantes da sua vida, e apesar de toda a tristeza, não chorou. Olhou para corda, para os envelopes, para a porta. Saiu. Conferia os nomes enquanto jogava as cartas na caixa do correio e recuou na que tinha escrito o nome da sua mulher, que apenas um dia foi embora, sem explicações, despedidas ou ponto final.

Seu “adeus” demoraria alguns dias até alcançar a todos que correram em momentos distintos ao mesmo local e encontraram a casa e a corda. E inúmeras perguntas para a ausência, mas por falta de porquês, mantiveram intocado o lugar.

Foram nove anos de andanças. E no retorno, enviou novas cartas, dessa vez com uma frase, que dias depois romperia as frestas das portas dos que amava: “perdão, mas precisava”. À que era sua mulher, postou o adeus guardado pelos anos. Voltou pra sua velha casa, retirou a corda do teto, cortou em dois pedaços e armou a rede que comprara em uma das suas paradas. Deitou com as pernas cruzadas, cansado.

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