Língua nos dentes

Passeava a língua nos dentes. Apesar da luz da televisão queimando os olhos profundos, não piscava. O pensamento longe dali. Não estava preocupado com o casamento a caminho, apesar do dinheiro ter rareado nos últimos meses de preparatórios com direito a não menos que tudo. Seu medo era que Otto, seu filho mais velho, inaugurando o presente de dezoito anos – que chegara antes da data e da habilitação – tivesse se envolvido em algum problema. Nunca passava das quatro da manhã as festas do seu preferido. Nunca. Já clareava lá fora e nada de Otto. O celular tocou rasgando os devaneios de catástrofes, num susto derrubou o copo com água que equilibrava em cima da perna com uma das mãos.

–       Merda!

Na sala do andar de baixo, Aninha, a noiva, entre um ajuste e outro no vestido dos sonhos, corria até a porta e lançava olhos de desespero em direção à rua, e ao céu que anunciava tempestade para logo. Sob os protestos de Rosália, sua mãe, voltava com a cabeça riscando o chão em pressentimentos segredos.

–       Minha filha, desse jeito vai chegar a lua de mel e o vestido não fica pronto.

Zerricardo, como exigia que grafassem seu nome quase grife, ajustava o vestido, e sorria contido, numa elegância que o protótipo de elegância de Rosália jamais alcançaria, apesar das pedras balançando em seu pescoço magro, em seu colo saltando um par de peitos pagos à vista, em dinheiro.

Seu Mário, em cima do telhado, recebia instruções malcriadas do neto mais novo enquanto equilibrava o corpo robusto de um homem de antes, as mãos grandes, alguma barriga, medo algum.

–       Bora, Filipe! Mais uma piada e te jogo cá pra cima pra você ver como é bonito, e alto. Mais alto que bonito.

–       Vô, eu disse que era pro senhor chamar o filho do caseiro…

–       E por acaso o menino não tem nome?

–       Tem, mas não precisa.

–       Como é que é, moleque?

–       Tá, vô. Tá bom… Augusto… Falei que o senhor tinha que chamar o Augusto.

–       Um dia você aprende.

–       Aprendo a falar o nome de quem não conheço?

–       Aprende que se um homem não pode cuidar do próprio telhado, ele não é digno de ter a própria casa.

–       Ah, tá. Para. É aí mesmo… Já viu, né?

–       Claro que vi. Você tem preguiça até de enxergar, moleque.

Filipe trapaceia seu corpo no corrimão da escada. A camisa enrosca num pedaço solto de madeira. Ele cai. Um som surdo no chão. Silêncio.

No quarto do fim do corredor, Ângelo, aos gritos no telefone com Otto.

–       Mas que merda foi essa, rapaz? Três pessoas? E onde é que tá o Guga? Ele não levou a carteira?

Do outro lado da linha, Otto era mistura de fala e choro de desespero.

–       Mas que merda, Otto… Que merda. No dia do meu casamento! Você tinha que aprontar uma dessas…

Mais choro.

–       Tá, tá, tá… Para. Fez merda, agora aprende a ser homem. Chama o cana.

O menino, mãos trêmulas, passa o telefone para o soldado Esteves.

–       Chefe? Ô, chefe, alivia essa pra mim. Eu não posso nem sair de casa. (…) Você faz isso pra mim? Traz o moleque aqui que a gente vai pra delegacia junto. Preciso só acalmar o menino antes. Você entende, né? (…) Claro, claro. A gente conversa. (…) Até.

Escada abaixo, Aninha encostada na porta. Olhos fixos num futuro improvável, saudade do que sabe que não será. Fita o céu, as nuvens mais pesadas. Fita a rua, num silêncio de anúncio solene.

Rosália imita um charme antigo passando a mão no colar com as pedras pagas à vista, em dinheiro. Sorri o sorriso de antes, a deselegância de que não escapa, apesar do esforço, das aulas de etiqueta, e dos terninhos cortados na Itália. Sorri para o computador como se sorrisse para o amor de sua vida. Mário nunca foi capaz de entende-la. Nunca foi digno de aceita-la, de perceber que ela quis sempre foi dar dignidade à família em pedaços. De repente o silêncio da casa a incomodou.

–       Aninha, minha filha, cadê Filipe? Será que seu pai foi capaz de botar o menino em cima da casa mesmo?

Aninha, absorta em suor, lágrimas e uma dor quieta, não sabia do filho do casamento infeliz terminado meses antes. Nunca quis saber.

–       Não vi não.

Rosália sente uma angústia no peito e se levanta apertando as rugas umas nas outras. Esbarra na xícara de chá – já frio e derramado no tapete de gosto quase bom – que quebra em muitas partes de imitação de porcelana. Leva a mão ao peito e amarrota a roupa impecável que quase não cobre o colo.

–       Lipe!

Avança pra dentro da casa numa pressa tarde demais.

No telhado, seu Mário confere as telhas todas alinhadas, quase novas, buraco nenhum à vista. Estica o corpo com esforço, mãos na coluna, e olha para a estrada. Ameaça um sorriso. As nuvens negras já derramam chuva perto dali. E um carro aponta na estrada.

Na porta da casa, vestido ajustado, rosto desfigurando, Aninha é só olhos saltados para o carro da polícia que se aproxima. Dentro do carro, Otto, seu agora quase enteado mais velho tem os olhos inchados de choro. E manchado de negro. E um batom vermelho na boca. Ela morde o lábio em incompreensão e corre pra dentro de casa. A viatura faz aquele barulho inconfundível durante um segundo, avisando a chegada.

Ângelo assiste à milésima reportagem sobre o escândalo de corrupção que derrubou gente dos três poderes nos últimos meses.

–       Rebanho de filho da puta. Por isso que isso daqui é essa merda…

A viatura repete seu anúncio. Ângelo confere pela janela, reconta os mil reais de alegrar o soldado e desce. Passa ao lado de um corpo imóvel, mas não se dá conta, conferindo o email no celular.

Rosália está no pé da escada olhando pra cima, arfando de um medo que não erra nunca. Ângelo toma um susto ao ver a mulher ali naquele estado.

–       Cruz credo, sogra… Que cara é essa?

–       Você viu Lipe?

–       Ah, deve tá lá em cima com seu Mário… Deixa eu ver Otto aqui que fez merda.

–       Fez o quê?

–       Nada não. Já vou resolver.

Ângelo segue em direção à porta. Rosália continua encarando o alto da escada. A mão pregada no peito.

Quando Mário se prepara para descer pelo buraco que abrira no telhado, escuta o barulho de sirenes de pelo menos três carros pretos. Sorri satisfeito. Na escada por dentro de casa, ajeita as últimas telhas. Desce o pequeno lance de escadas que dá para o primeiro andar. E logo vê Filipe imóvel no chão. Apressa o passo e tropeça em direção ao neto. Ajoelha, desvira o menino.

–       Lipe? Lipe?

Alguns tapas no rosto e o menino segue imóvel. O desespero toma conta do homem antigo. As mãos firmes tremem sem saber o que fazer.

–       Lipe? Acorda, Lipe.

Lá fora, enquanto Ângelo consola o filho maquiagem borrada em seu peito e paga o soldado Esteves pela gentileza, observa os policiais federais entrando correndo na casa. Não entende o que o filho faz com aquela maquiagem depois de ter atropelado três. O soldado entra rápido no carro de polícia pequena e vai embora. E o filho soluçando em silêncio, de maquiagem, enfiando o rosto em seu peito.

Subindo a escada já aos prantos, Rosália é segurada por um dos policiais pelo braço, sem cuidado.

–       Mas o que é isso? Que invasão é essa? Meu neto!!!

–       Dona Rosália, a senhora tá presa.

–       Mas que maluquice é essa? Minha gente, meu neto!

–       A senhora fala com seu neto depois. Vamos indo.

O policial não pisca sob os óculos escuros. Rosália olha mais uma vez para o alto da escada. E agora, enquanto é arrastada pela sala afora, escuta os gritos e os soluços inconfundíveis de Mário. O homem sacode seu corpo de avô sobre o neto, a dor dobrada. Rosália desfalece na sala, mas os policiais continuam levando-a para o carro, enquanto tentam reanimá-la. Ali perto, Otto manchado não chora mais no peito do pai com os olhos de não entender coisa alguma. Os dois escutam os urros de Mário lá dentro. E não conseguem se mover.

A chuva agora cai em desgraça sobre a casa.

No banheiro dos fundos, Aninha, vestido ajustado, rosto desfigurado, passa a língua nos dentes, puxa o pequeno revólver escondido na noite anterior atrás da pia, põe debaixo do queixo e dispara.

Um som surdo no chão. Silêncio.

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8 comentários sobre “Língua nos dentes

  1. era um sábado ensolarado aqui no outro ponto da distância que me separa de vc.
    mas… ei! que tragédia.
    agora tenho medo de virar a esquina da sala.

    perfeito. como se já não fosse sempre!

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