A língua da Serpente

“Então a Serpente disse para a Mulher: “De modo nenhum vocês morrerão. Mas Deus sabe que, no dia em que vocês comerem o fruto, os olhos  de vocês vão se abrir, e vocês se tornarão como deuses, conhecedores do bem e do mal.”
Então a mulher viu que a árvore tentava o apetite, era uma delícia para os olhos e desejável para adquirir discernimento. Pegou o fruto e comeu; depois o deu também ao marido que estava com ela, e também ele o comeu.”

Gênesis – II, vs: 4;6

Acordou e percebeu que estava nua, teve vergonha. Nunca se descuidara em deixar que as luzes da manhã lhe trouxessem a visão do próprio corpo nu, a sensação de imoralidade era inevitável. Olhou em redor, o quarto estava vazio, suspirou aliviada, levantou sem pressa. Olhou para a parede e correu para apanhar o roupão e se cobrir. A presença do crucifixo onde o filho do Homem jazia, pagando antecipadamente seus pecados, travava-lhe a garganta. “A Deus ninguém engana.” Correu para o banheiro, admirou-se no espelho e ensaiou um sorriso, era bonita. Conferiu o lábio e cuspiu. Sangue e dignidade escorreram misturados com a água da torneira. Não sentiu remorso, o tempo e a frequência das coisas as tornam simples e naturais. Precisava tomar banho.

Já era noite quando a conferência do partido começou. Estava marcada para o meio da tarde, mas político que não atrasa não tem respeito. Era um dia importante, as eleições iriam começar e era preciso conseguir apoio e investimentos. Ela entrou no salão com seu passo determinado, tinha vestido vermelho: encheu o ambiente. Olhos furiosos e desejosos nela, era o peso que teria de suportar pelos próximos meses. Alguns sorrisos, apertos de mão, muitas fotos, uns velhos radicais discursando para encher linguiça e lembrar que ainda estavam vivos e que os lobos mesmo sem dentes podem morder. Enfim chegara a sua vez, precisava ser firme e mostrar-se segura. Para o público presente seria o dia decisivo de sua candidatura, para ela apenas a confirmação, o leão ela tinha abatido de madrugada e, apesar do banho demorado, o cheiro da carcaça pesando sobre ela na noite anterior parecia lhe perseguir.

Subiu ao palanque. A arte de manipular não lhe era estranha. Aprendida desde cedo, algo soturnamente nato que não sabia explicar, mas que as mulheres compreendiam. Soube emocionar, soube fazer acreditar, soube convencer, impecável. A avalanche de indagações inúteis, que serviam apenas para testar-lhe, não a fez titubear, seu espírito predador não lhe permitia ser ovelha. Terminou sua participação ovacionada, mas os conhecedores do partido sabiam que ela era a que menos chances tinha, era nova demais, bonita demais, sua experiência política tornava-se gota ante o mar de militância que possuíam as múmias do partido que também aspiravam a candidatura. Desceu e foi cumprimentar os que a apoiavam enquanto aguardava a decisão do líder do partido. Sim, decisão, pois todos naquele salão sabiam que o escolhido do presidente sempre era o que se tornaria candidato e só em ter o apoio dele, era certo ganhar a eleição.

– Você foi esplêndida!

– Magnífica. Terá um futuro brilhante, mas sabe que não sairá candidata, o cargo de governador é muito disputado e você ainda é nova nisso.

Ela apenas sorriu.

– Pode sair como deputada. Suas chances são grandes, você agradou as bases.

–  Não pensarei nisso agora. Vejam, o presidente irá falar. Só depois pensarei o que fazer de minha candidatura.

O presidente do partido era um velho gordo, meio sebento que cuspia quando falava. Havia boatos que o cuspe era proposital, uma forma sádica de menosprezar quem ele julgava inferior. Falava muito e se exaltava com frequência. Terminava seus discursos suado e vermelho, porém era muito respeitado. Todos sabiam que não havia no estado homem mais influente e sagaz que ele. Quem tinha pretensão de fazer carreira e ser alguém no meio político tinha que lhe conquistar a simpatia. Trabalho de Hércules, tão antipático e conservador que ele era, há anos decidia quem mandaria sob o seu chicote naquele lugar.

Estranhamente foi conciso, falou pouco, não explicou muito, falou de renovação, da mudança do mundo, de que era preciso caras novas, de como as minorias e as mulheres vinham ganhando espaço e como isso afetaria a imagem do partido, tão machista e tão conservadora. Finalmente anunciou a quem daria o seu apoio. Surpresa quase geral, um riso no rosto jovem e sereno dela exibia a satisfação de quem sabia, quem sempre soube.

– Como você conseguiu convencer aquela cobra velha?!

– Já não sabe que conversar com serpente é arte que só as mulheres tem domínio? É assim desde que o mundo é mundo.

Ninguém entendeu. Foi ovacionada e muito cumprimentada. Era agora com certeza a futura governadora do estado. Em sua cabeça as palavras da mãe, quando apanhou-lhe ainda pequena furtando de sua bolsa, tirava-lhe um pouco do eixo: “A Deus ninguém engana.”

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