Laranjas e ovelhas

“O que seria do mundo sem os seres dados às contravenções?” Essa frase hoje tinha outras palavras mais bonitas, mas não foge do ensinamento repetido com insistência do seu pai ainda na infância: “Sempre leve vantagem!” E assim foi… Ainda pequeno testava os limites dos adultos ao redor, funcionava com quase todos, menos com os pais: estes eram mais ordinários!

Aos cinco anos, ao perder um dos dentes de leite na casa da avó, ficou sabendo da história da fada do dente após ter arremessado o dente mole no lago. Não pensou duas vezes, substituiu o mesmo por um pedaço de osso de galinha. Ficou a noite fingindo dormir, quando viu a avó substituido o osso por uma nota, segurou a risada pensando em quão trouxa era a velha. E de pequenos golpes, aprendeu logo cedo que dinheiro poderia vir fácil e com ele todas as coisas que podem comprar.

Na escola se aperfeiçoou: falsificação de assinaturas em boletins com elogios da mãe pela cópia perfeita de sua caligrafia, colas e os primeiros furtos, ah como roubar era grandioso. O quase gozo físico de sair impune era sua motivação, no mundo de otários, ele seria rei!

Na adolescência só aumentou o nível dos desvios de condutas: enganar moças somente para tirar a virgindade, juras vazias de amor provocam risos frenéticos em sua cabeça, que viravam suspiros e palavrinhas doces aos ouvidos das babacas sonhadoras. Desfilar com carros “emprestados” aumentava a adrenalina. Ria-se por dentro, ser desonesto era sua melhor qualidade, era a união de muitas outras: mentira, ganância e avareza.

Aos 18 virou estelionatário por profissão. Criava fantasmas, laranjas e tantos termos para golpistas. Pena que sua profissão precisava de ostracismo, mas queria ser capa de revista e jornal, assunto por dias, mas como assumia outras personalidades, usava e abusava de documentos falsos, a imagem em sigilo era fundamental.

A intuição recomendara não tentar sacar o dinheiro de um figurão do alto governo em um paraíso fiscal, mas o desafio o moveu, afinal ele era rei, os demais, trouxas. Acabou rastreado por policias corruptos. Realizou o sonho de ser notícia, mas arruinou toda uma carreira.

Saiu em todas as possíveis revistas e jornais, vídeos no youtube, na tv: era a celebridade do momento. Ouviu dizer que até mulheres reclamando exames de DNA apareceram em programas populares, riu jubiloso ao recontar os cabaços colhidos: 42.

Agora descoberto, nunca mais passaria por desconhecido para aliciar bobalhões. Se entregou à tristeza até conhecer Jesus ainda na cadeia. Mudou seu viver! Se converteu, virou pastor, resgatou ovelhas, criou fiéis, conheceu uns empreiteiros. Agora como homem de bem, legitimado por seus iguais, virou deputado mais bem votado.

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