Joana

Afastou a cerca de arame e passou sem dificuldades, tarefa pequena para quem atravessara tantas outras barreiras desse mundo que não ia fácil. O ventre crescido não a intimidava, era a nona gravidez, sétimo filho caso viesse a vingar. Precisava ser rápida, seis bocas em casa, nada no prato há dois dias. Apressou-se em cortar a palma, o marido não dava notícias há semanas, dinheiro então, nem sinal. Havia se virado como pôde, mas trabalho em época de seca era artigo raro e a paga era um saco de milho que a custo servia de mingau insosso para tapear a fome. Nosso Senhor havia de perdoar, nunca foi ladra, mas o estômago doía e os pequenos choravam ao pé do prato vazio. Arrancou alguns mangalôs, não iam fazer falta. Aquela era terra de gente bem servida na vida que lucrara muito no seu lombo. De certa forma buscava sua paga, mais um filho levado pela seca é que não ia suportar. Um caboré piou agourento: “Ave, desgramada! Se enfia debaixo da terra pra espiar o tinhoso mardito que lhe criou”. Ia enchendo o saco, mas não levava muito, apenas o suficiente para sobreviver regradamente por mais uma semana. Um vulto roçou-lhe a perna, conteve o grito do susto, em seguida conteve o de emoção, seus olhos brilharam! Se fosse rápida, teriam carne no prato. Tirou a faca quase cega da cintura e avançou rapina sobre o animal: um golpe, o bicho lhe mordeu, ela segurou-lhe o pescoço e terminou o serviço. Era a providência divina atendendo suas preces, jogou o sariguê no saco, embainhou a faca no cós roto da saia, saco nas costas, o caminho era longo e a madrugada ia alta. Atravessaria quatro cercas antes de chegar na casa de um cômodo só, onde os pequenos amontoados aguardavam, os maiores em oração, os menores em sono inocente de quem ainda não aprendera pecar.

Ela chegou suada e arfante. Alegria geral sentida em silêncio, olhou terna o mais velho.

– Apaga o candeeiro, menino. Vamos dormir!

Sorriso obediente, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo e a nossa mãe, Maria Santíssima. Assoprou o pavio, amanhã o dia ia ser melhor.
Nem bem clareara e o trabalho se fazia intenso, o infeliz da noite anterior encontrava-se agora estendido no varal a secar. O pedaço sujo de pano rasgado da saia envolvendo a ferida úmida lembrava que o animal viera de contra gosto, agora pingava sangue lavando o pouco sal que iria lhe manter bom de comer pelos próximos dias. Joana e uma mocinha de uns seis anos cortavam a palma ansiando o almoço. A filha mais velha, na responsabilidade dos seus onze anos, havia ido buscar junto com o irmão, um ano mais novo, água e lenha. Água barrenta disputada com os bichos dos outros e galhos retorcidos de árvores mortas, vítimas da estiagem. Em tempos assim até os mortos têm serventia. Um menino magrelo consertava os buracos da parede de barro ressecado com habilidade de mestre de obras, enquanto isso duas outras crianças, uma menina e um menino de dois e quatro anos, brincavam tolamente com um pedaço de osso e uma lata enferrujada: papai-noel não acertava o caminho do sertão.

Pequena reunião em volta do fogo, olhos gulosos sabiam ser pacientes, hoje pelo menos tinham o que pôr na panela, seguiam obedientes esperando a precária refeição.

– Mãe, o pai ainda vem?

– Oxe, menina! Que conversa mais lesa é essa? Claro que vem!

– Tá demorando, não passa tanto tempo assim fora.

– Mas é que esse trabalho é longe mesmo, deixa estar e logo ele estará aqui com nós e o dinheiro que ganhou.

Um meio sorriso de quem confiava na mãe aquietou o coração da menina na mesma medida em que afastava a incerteza do pensamento da mulher, ele havia de vir. Era homem de palavra, não ia deixar esposa e filhos ao “deus-dará”, tinha que ter fé.

As esteiras que durante a noite serviam de cama cobriam o chão de terra batida dentro da humilde moradia, eram agora mesa e cadeiras não imaginadas pelos presentes. Uma oração de agradecimento pelo desjejum os diferenciava dos bichos. Magicamente ninguém falava, hora da refeição é hora sagrada, comiam sem pressa o material do perdoado crime. Um vento poeirento passou meio que desapercebido. Findado o banquete, Joana se punha de cócoras a lavar as tramelas engorduradas no pouco de água que dispunha, sentiu uma pontada nas costas.

– Mãe, a senhora tá chovendo! – gritou a mais nova.

Os olhos dela de trovão, iluminaram a tarde como raio.

– Corre, Quinca! Vai buscar comadre Noca pra aparar tua irmã que já vai nascer!

– É menina, mãe?

– É. – Falou ela com aquela certeza de quem nunca errara.

O menino ventou pelas cercas; a mais velha, conhecedora de seu ofício, pôs o caldeirão com a água escura no fogo sem precisar pedir. Um barulho na cancela e aquele conhecido arrastar de botinas que levantava poeira no caminho.

– Ninha!

Os meninos se alvoroçaram ao encontro, ela sorriu timidamente, deitada na esteira, agora coberta por um pano por conta da ocasião. Era ele quem chegava. Olhou para a filha, tão adulta ao seu lado, uma contração um pouco mais forte, seu rosto iluminado de suor.

– Vê, Dainha, esse ano chove!

A menina sorriu, a mãe nunca errava.

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10 comentários sobre “Joana

  1. Muito boa a riqueza de detalhes. Consegui estar ali ao lado daquela pobre família e observar, sem nada fazer, o sofrimento da mesma.
    Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência! Quantas pessoas ainda sofrem com a seca, observadas por outras que nada fazem para ajudar?

  2. Agradeço imensamente por terem lido e mais ainda pelos elogios. É sempre um prazer escrever para um público de tão aguçada sensibilidade.
    Beijos!

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