Juazeiros não secam

Nossa Senhora estava sentada embaixo do Juazeiro. Descansava os pés e esfriava a moleira numa tarde torrada para depois seguir a marcha abençoando os fortes sertanejos: mandacarus, xique-xiques, mulheres de lenços na cabeça, homem de enxada em punhos e facões amarrados na cintura, meninos de pés descalços que correm atrás de bolas de trapos e meninas que arrastam bonecas de panos.

Zé era um desses fortes, o último dos seus. Naquela manhã, como nas outras, o galo cantou uma, duas vezes. Pulou da tira de tábua coberta com feno e um lençol que fazia o papel de cama e mergulhou a velha caneca de alumínio no pote, o rangido do metal raspando o fundo do barro era um prenuncio torturante: teria de buscar água.

Abriu a porta de madeira e fechou o ritual de começo de dia: olhou para cima à procura das nuvens, brancas não, brancura de nuvem é tristeza de sertanejo. Nuvens negras, fortes, pesadas. Essas sim são prenúncios de felicidade irrestrita. É sempre assim: chove, brota, dá flor, dá fruta. Nasce rio. Depois seca. Primeiro secam os rios, depois as plantas, animais e pessoas. Secam as palavras. E cada vez fica mais longe para se buscar água: o sertão não convive com meios termos.

Andou. Não passava de seis da manhã e o sol já anunciava que seria tão quente quanto nos últimos dois anos de seca. Os gravetos retorcidos perfuravam, rasgavam a pele cinzenta e ressecada. E no caminho até a cacimba, encontrou outros fortes que murmuravam sons: securas de ouvir. O calor não abrandava e, mesmo assim, não saia suor daquele corpo. Parece que não podia se dar à ostentação de perder água. Não desse jeito.

E caminhou o dia quase todo. Sem combustível, mastigou um pouco de farinha sentado à sombra de um juá e olhou os outros seguindo à fonte.  Sentiu água descer à garganta seca e uma brisa fresca na pele. Nossa Senhora sentada ao seu lado.

– A bença, mãe.

– Que Nosso Senhor Jesus Cristo, meu filho, te guarde.

Mais um forte tombara no sertão. Carcarás esperavam o banquete parco, mas constante desses fortes que caem. Nossa Senhora seguiu pelo sertão, descansaria no próximo juazeiro. Dias depois, um anônimo colocaria uma cruz improvisada naquele local.

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17 comentários sobre “Juazeiros não secam

  1. Esse foi um dos mais tocantes que já li. Muito bom. Deveria ser lido por todos… Especialmente àqueles que nunca passaram por situações como essa e acham que a vida é “sofrida”… Parabéns!

  2. Impressão de que você fala de algo que já viveu… Fortíssima a ideia de contextualização autor-
    texto que norteia seus contos! Parabéns, meu caro! Sucessos e sucessos!

  3. Muito bom. Um dos melhores!

    Tem um “quê” de Vidas Secas, ao dar excessiva expressividade ao cenário e importância secundária aos personagens.

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