Trapo – o princípio (ou precipício)

Manoel leva a vida na ponta da faca. O coração vai mansinho debaixo dos pés, espremido na bota e beijando o chão de terra batida. A terra grilada pelo avô há muito não justifica o sangue derramado por lá tantas vezes. Uma mulher sabida, como sempre sonhou, e um filho menino ao contrário da vontade primeira. “Pra não se agradar muito com a vida. Sem um amargo nas tripa a gente amolece”.

Não foi homem de muitas mulheres, Manoel. Em todas procurava a sabida. Algumas sabidas demais pro pouco estudo dele, o rejeitaram. Cada uma recebeu uma lembrança que nunca vai esquecer. As outras o faziam perder a paciência. Um dia, Anamaria (escrito junto porque escrivão trabalhava bêbado), “velha pra casamento”, a mãe de Manoel ainda o aconselhou, passou em frente à casa em que ele tinha um trabalho. Ele estava sentado no batente da porta esperando a função começar. E Anamaria passou com óculos grandes, maiores que o rosto, balançando um vestido colorido, “coisa de artista”. E bastou.

– Boa tarde.

Ele demorou alguns segundos pra responder. Primeiro não era seu costume dar dias bons a ninguém, segundo que… O vestido dela não deixava ele pensar direito. Ele tinha esse problema com vestidos, se perdia no balanço do pano. Lembrava do pano branco das regras das meninas das roças ao redor na infância, ia para lá e voltava. Ela olhou para ele uma vez mais, quase exigindo a resposta.

– Tarde.

Quase não saiu. E tossiu em seguida. Fingindo algum impedimento físico para a demora na resposta fraca, quase inaudível. Ela não sorriu.

No dia seguinte, serviço feito, na frente da mesma casa, no mesmo horário, Manoel esperava com a flor mais bonita que encontrou no pequeno cemitério, o único lugar em que poderia encontrar alguma. E se apressou para perto da cerca, pendurando o melhor sorriso no rosto estragado de sol e suor.

– Boa tarde.

A voz mais uma vez falhou. A tosse veio como no dia anterior como combinado, e ele repetiu, firme.

– Boa tarde, dona prossôra.

Ela ajeitou os óculos grandes, enjaulou um sorriso debaixo do vestido quase branco e respondeu.

– Boa tarde, seu moço. Essa tosse sua só precisa água. Mais nada.

Ele a acompanhava e ia recolhendo sem jeito a flor atrás das costas. Ladeava o caminho pela cerca quase em sincronia com os passos de Anamaria.

– E essa flor que você me trouxe também carece dessa mesma água. Água de lavar vergonha.

– Ô… A frô… É que vi a senhora aquele dia com um vestido colorido. Achei que gostava.

– Só gosto quando me dão.

Manoel pulou a cerca num gesto e, antes que ela percebesse, colocou a flor escorrendo atrás da haste dos óculos grandes, tocando com um só dedo quase carvão a orelha dela. Anamaria assustou.

– Oxe!

Manoel deu dois passos para trás quase indo embora de vergonha.

– Calma. O susto quem tomou fui eu.

Manoel sorriu o pouco sorriso que tinha. Tremia, suava, tamborilava sonhos de futuro acelerado dentro da camisa quase alva, a única de linho que guardava para enterros e ocasiões.

– Qual é a sua graça?

– É Manoel Ma-

– Manoel de quê?

– Manoel Martins. E a sinhóra?

– Eu tenho duas senhoras na minha vida: minha mãe e a Virgem. Eu não sou nem uma nem outra. Chamo Anamaria.

Manoel não entendeu muito bem o que foi dito. Mas tremia, suava, tamborilava sonhos de futuro dentro da camisa de linho quase alva, porque ela era sabida. Demais. De arrancar juízo de homem com a unha. E lhe disse seu nome, e recebeu a flor de bom grado, e toda vez que ela abria a boca os olhos dele cresciam, as mãos se agoniavam atrás das costas largas. A camisa atrás já toda colada de tanta alegria debaixo do sol.

– E o seu Manoel trabalha com o quê que mal lhe pergunte?

– Trabalho é com mo-

– Mo?

– Máquina. Eu trabalho com máquina.

– Que tipo de máquina? Fazendo o quê?

– Ah… Todo tipo. Máquina de fazer açude, de fazer costura, motor. Toda máquina…

Dizia de improviso quase sincero.

– Sei… E estudou não, foi?

Manoel procura o chapéu na cabeça quando repara que está na outra mão.

– Estudei não, mas nunca fui burro. Se a sinhóra me ensiná eu aprendo ligeiro, é certo!

Não conseguia conter a ansiedade tão rara. Quase brotava um sorriso verdadeiro sem dor em seu rosto. Anamaria sorriu em segredo achando bonito demais um homem tão bruto se derramar de bandeja, entregue, quase implorando pelo carinho dela.

– Segunda a aula começa.

– Segunda? Mas que dia é hoje?

– Segunda. Dia de principiar. Me acompanhe que hoje a lição é lá em casa.

Anamaria ia à frente balançando o vestido cobrindo metade das costas suadas, Manoel ia atrás respirando o que restava de ar na alegria debaixo de tanto sol.

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12 comentários sobre “Trapo – o princípio (ou precipício)

  1. Léo,esse seu texto me remeteu a esse outro: Cumplicidade- O Pensador

    Quando chegares
    Sabes o que vai estar a te esperar?
    De dia, um amor santo
    De noite, um profano
    E, depois um amor diferente, cada dia
    Para constantemente conviver com a rotina
    Quando chegares te receberei com uma menina
    Correremos pela casa
    Faremos guerra de travesseiros
    Mediremos força
    Te jogarei no sofá
    Colaremos nossos narizes
    E, olhos vidrados na felicidade, em carne e osso
    Vou dizer algumas coisas no seu ouvido
    Depois, aparecerá a mulher que te fascina

    E, só então, aquela que tu imagina

    E, chegando, encontrarás segredos pelo chão
    Seguindo-os entrarás num templo
    Ali, amarás e te libertarás para mais amar
    Serás o que sempre quis
    Amado, desejado, fruto de um amor desmedido

    Aí, respirarás.
    Porque, só então, começarei a te comtemplar
    Pra depois, sentir seu paladar
    Seu respirar
    Seu pulsar
    Seu olhar
    Suas vontades
    Suas insanidades
    Suas manias

    Então, chegou a hora de eu te mostrar o que é o meu amar
    Quando chegar, o amor estará a te esperar
    Mas cuidado, o desejo, a paixão, a fascinação que há em mim
    Pode, por um descuido, primeiro, lhe recepcionar
    É bom se preparar.

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