Serenata para dois

Ele era calado desde sempre. Não que fosse tímido, sua escolhida mutez dava valor maior às palavras quando estas lhe fugiam da boca. Cercava-se de muros que vez ou outra alguém tentava espiar, mistério de moleque que se divertia com os que tombavam sem nada ver. Raro sorriso de sincera resolução, facilidade em atrair amigos e respeito. Gostava da casa, e mais do que da casa, gostava de gastar o tempo em que permanecia nela a dedilhar o violão que aprendera a manusear sozinho e há tanto tempo que não tinha lembrança de quando. Desajeitadamente sentado, escorado na cama ou sofá quando as costas doíam, ocupava o dia inteiro num estudo quase que ininterrupto do instrumento. Vez ou outra parava para comer ou beber algo, e, lá pelas tantas da noite, lembrava que ainda não tinha tomado banho, que no dia seguinte era preciso trabalhar cedo. Guardava o companheiro com paternal afeto, e, meio que a contragosto, recolhia-se às necessidades mortais. Breve voltaria.

Ela gostava de falar. O discurso era sua paixão, superada apenas pelos livros e pela timidez que vez ou outra se fazia maior que ela mesma e lhe dava um estranho ar de prepotência que espantava as pessoas, aumentando a dificuldade que tinha em conquistar amigos. Construíram uma barreira em volta dela e ela se permitiu ficar ali, com alguns livros e a música sempre presente como companhia. Aliás, tinha um imenso fascínio pela música. Conhecia do erudito ao popular, sabendo distinguir e apreciar os mais variados estilos. Pagara por algumas aulas sem sucesso para  aprender à tocar alguns instrumentos de corda mas esse fracasso de forma alguma lhe abatia, permitia-se ouvir e cantarolar sonhando desafinadamente a solidão de seu quarto.

Ele não queria companhia.

Ela não podia ser companhia.

Certo dia soprou um vento estranho que os fez saírem de casa para tombar um com o outro na rua e na troca de um olhar perceberam uma canção. Incrédulos os dois, olharam em redor para saber se mais alguém escutava. Ninguém.

Os dois formaram um sorriso que iluminaria para sempre aquele lugar.

Não amaram-se ali.

O sentimento, construíram com os blocos que iam tirando dos dois muros que possuíam, a queda do que existiu em Berlim deu menos trabalho.
Num fim de tarde, sem porquê, ele descobriu nas curvas dela um ritmo desconhecido que queria estudar e ela nos olhos dele percebeu histórias inúmeras que queria conhecer. Tapando a boca um do outro no confluir dos corpos fizeram sinfonia digna de um Mozart. Só eles ouviram, só eles sabiam tocar. Desde então não souberam ser sós, ou pelo menos eram sozinhos juntos.

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2 comentários sobre “Serenata para dois

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