Ventava. Ardia. Queimava.

Deitada. Depois de horas infinitas olhando pro tédio no teto. E continua. Deitada. Levanta. De hoje não passa. Põe o menor vestido e a sandália mais baixa e sai balançando a falta de vergonha na rua. Os peitos saltando nas bocas dos olhos do mundo. Ela só fazia isso pra ver o que diriam. Dela, e dos peitos. E o que fariam. Se fariam.

Serpenteia entre gente faminta, sedenta. E escuta tudo que pensam sobre ela. E sobre os peitos. Era como se eles fossem uma entidade independente. “Vadia”, “gostosa”, “vagabunda”, “minha boca ali”, “onde essa menina esqueceu o juízo?”. Gosta de tudo que escuta. Queria gravar para chegar em casa e pôr para tocar no som velho até secar a vontade. Um moleque de uns vinte anos começa a andar do seu lado. “Puta que pariu”, ela pensa.

– Você é demais pra mim, linda.

– Sei.

– Sério…

Ela olha para ele com desdém.

– Eu sei. Mesmo.

O moleque ameaça um sorriso e vai falar algo quando passeia com a mão no quadril ventania dela. Ela tira a navalha do meio dos peitos e rasga o rosto do moleque. Ele dá um urro de dor e cai. Ela sorri, leve. E segue. Balançando os olhares, agora paralisados de febre e medo; e os peitos; e os quadris de ventania.

Acorda. O sono da tarde sempre traz razões para continuar vivendo. O violão gasto deitado do lado dela na cama. Um vento sorrateiro assobiando presságios no corpo do velho instrumento. O longo vestido cobrindo o corpo esticando, estirando, contorcendo. E entre as pernas o desejo vertendo do sonho bem feito. Tira a calcinha com um dedo. Se demora olhando a pequena peça cheirando a desatino.

O velho som piscando às 0:00. A mesa de uma velha máquina de costura fazendo as vezes de escrivaninha, e um caderno amarrado em cordas amarelas descansando de alguma estória mal contada. Coleciona coisas que perderam a função. Máquinas de escrever, fitas k7, chaves de portas de outros séculos, muitos carimbos do emprego largado.

Para um minuto olhando para o quarto quase escuro, a luz escorrendo da janela pelo canto da cortina cor de pano de saco. Pegou o isqueiro e pôs fogo no violão. Enquanto a chama aumentava, tirou o sutiã, foi até o guarda-roupa, pôs o menor vestido, calçou as sandálias mais baixas, e saiu pelo corredor do cortiço fedendo a passado. Ventava. Ardia. Queimava.

Anúncios

9 comentários sobre “Ventava. Ardia. Queimava.

  1. Lindo Leo, achei o texto, sensual sem ser vulgar.Quanta inquietacáo e sensualidade nessa mulher que ventava, ardia e queimava.O que sera que ela procura?

  2. Não se sonha sem que se repita um pedacinho esquisito da realidade…
    A mão na cintura ventania, uma navalha na face…
    Que loucura que são esses sonhos à luz do dia.

    Show de bola a pontuação, o texto corre aos olhos como uma série empolgante de embaixadinhas, num ritmo hipnotizante. Parabéns brodança.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s