O violão e o tempo

Aquela era uma rua que nascia. Quatro casas apenas e muito terreno baldio com plantas vagabundas, areia que não se importava em virar lama quando chovia e ser poeira em dias secos. Postes de iluminação não existiam, a luz era proveniente das casas. Era tão jovem que a prefeitura ainda não tinha a ousadia de cobrar IPTU.

Nessa rua, Jorge ia toda noite que tinha lua cheia e estrela, carregava o violão no ombro e no olho um brilho apaixonado, um sorriso bobo e um coração desesperado para entoar as palavras mais bonitas ritmadas. E postava-se à frente de um terreno baldio, com o rosto levantado. Cantava a mesma canção! Cantava o amor até a garganta secar e os olhos umedecerem.

E enquanto o céu fosse de lua e estrelas, Jorge, violão e todo amor estacionavam no mesmo local. Ela aparecia, não descia para beijá-lo e dizer que o amava, apenas acenava. E quando ela se recolhia, a aflição o dominava e chorava prostrado ao chão até o sol nascer. Terminou por ser carregado numa camisa de força, ao acharem que a loucura dominou sua cabeça.

Aquela era uma rua madura. Júlia que nascera e crescera ali, penteava calmamente o cabelo com um pente que faltava uns dentes, mas insistia em mantê-lo na penteadeira, pois era a única coisa que tinha da avó. Manchava de vermelho os lábios e sorria mecanicamente para o espelho para conferir se pintou os dentes sem querer. Riscava de preto os olhos e soltava os cabelos. Virava o vidrinho de seiva de alfazema com o dedo obstruindo o orifício e passava delicadamente no pescoço, três vezes. Andava até a janela do primeiro andar. Com o olhar mirado para baixo, fixo, típico de menina boba apaixonada que ouvia serenata. Não enxergava ninguém, mas era dominada por uma canção, que parecia ser dedicada para ela e se deixava embalar em sonhos que borravam o batom, violavam o vestido e adulteravam a respiração.

A noite era de lua e estrelas, únicas noites que fazia esse ritual. Entrava em transe e escutava uma cantoria que outros não conseguiam ouvir. Quantas vezes quando estava acompanhada, perguntara para as amigas se ouviam a bela voz. Negativas, diziam apenas que só viam o calçamento, as casas e a luz alaranjada dos postes. E de tanto a chamarem de louca, passou a ouvir sem comentar sobre sua serenata. Seus pais começaram a notar seus estranhos acenos para o vazio em noites de luar, decidiram se mudar antes que a loucura a dominasse por completo.

Numa praça anônima, Jorge dedilhava a canção que por tantos anos morou dentro dele. Era um local movimentado, mas as pessoas, na correria infernal dos dias, nem prestavam a devida atenção. Ele não era esse tipo de artista que se importava com audiência, queria apenas tocar. Vinte anos isolado do mundo o torturaram, mas a falta da companhia leal do violão o mutilou com feridas que outras vidas não curariam.

– Que coisa linda.

Uma senhora bonita interrompeu, enquanto Jorge levantava a cabeça.

– Desde sempre essa música eu fiz pra você.

– Eu sei, só demorou muito tempo.

Júlia sorria e chorava ao mesmo tempo. Ela sabia exatamente quem estava na sua frente. Jorge também.

Anúncios

14 comentários sobre “O violão e o tempo

    1. Olá Marianne, que bom que gostou do texto, mas Léo não foi o autor desse! Entretanto, fico feliz por ser confundido com ele! =D

  1. Amei…Grênivel Costa, definitivamente seu forte não é a biologia rsrsrsrs…lembra dos primeiros semestres e das nossas conversas sobre outros cursos que talvez faríamos??? Beijão

  2. excelente texto Grênivel!! a mudança de tempo ficou ótima no texto. A história é sentimental sem ser piegas. O trecho que mais gostei foi esse …”E enquanto o céu fosse de lua e estrelas, Jorge, violão e todo amor estacionavam no mesmo local. Parabéns.

  3. Amor e loucura, loucura no amor, um amor louco … simplesmente amor. O quanto valeu a espera de um homem que carregava o violão no ombro e no olho um brilho apaixonado, um sorriso bobo por sua amada. Ahhh o tempo ….

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s