Ana sujava o mundo

Ana gostava da casa limpa. Na verdade, Ana era obcecada por limpeza. Passava horas seguidas a tirar o imaginado pó dos móveis. Pó que não ousava transpor a real barreira: janelas e portas lacradas para a rua, Ana fechada para o mundo. O cheiro forte do rico arsenal de desinfetante, sabão, água sanitária e similares descascava a mucosa do nariz que constantemente sangrava, salpicando o branco chão de vivo carmim. Incidente que obrigava a paciente mulher repetir a cansativa faxina mais duas vezes antes do quinto banho diário e da terceira inspeção corporal. Tão branca, tão limpa, nenhuma cicatriz, nenhuma mancha ou verruga, Ana era bonita mas não despertava paixões, passava tanto tempo lidando com água que não podia ou não sabia mais arder desejando um bem. Os poucos amigos que tinha demoravam muito a lhe visitar. É que para algumas pessoas o ritual de tirar os sapatos, limpar os pés com álcool, calçar os chinelos de pelúcia e cetim que não feriam o chão e posteriormente limpar as mãos, era algo deveras maçante. Muitos consideravam loucura as luvas para pegar em copos, o plástico posto no sofá para uso único, a falta de beijo e apertos de mão no necessário amistoso cumprimento de boas vindas, e, dessa forma, Ana foi ficando esquecida.

A televisão ligada, ela polindo a prataria, não olhava para a TV. Um comercial tirou-lhe do cuidadoso trabalho: um novo limpador de tudo chegava ao mercado prometendo ser melhor e mais eficiente do que os outros que ela tinha em casa. Os olhos de Ana brilharam, precisava daquilo com urgência! Estava decidida. Sairia naquele mesmo instante para comprar o maravilhoso produto. Sair de casa não era tarefa fácil, as ruas tão sujas, tão cheias de cheiros e gentes, mas era necessário. Encalacrou-se de roupas e luvas, apesar do verão, respirou alvejante e coragem e saiu. Caminhava apressada, quanto menos tempo passasse longe de sua redoma, mais segura estaria. Conhecia bem aquele caminho, o fizera muitas vezes, cuidava apenas para não tropeçar nem esbarrar em ninguém, tinha pavor ao toque alheio. No entanto, o olhar desobediente surpreendeu-lhe, estacou a decidida marcha contemplando, sem saber por que, o carro de limpeza urbana, mas quem observasse bem o devaneio admirar da moça perceberia que não era o carro que ela mirava com gula: dorso ensopado de suor e poeira, músculos negros acostumados ao trabalho, curtidos no sol sem cuidado, Ana esquecida do que a levara para rua querendo saber do salgado gosto daquelas costas. Quis correr, trancar-se em seu alvo esconderijo, as pernas amolecidas permitiu-lhe somente passos vacilantes que refizeram o caminho para casa. Naquela noite não tomou banho, deixou-se apenas sonhar.

Ana acordou feliz. Sentindo-se estranhamente sozinha, quis comprar algum animalzinho que lhe aliviasse a solidão, mas que bicho não macularia a organização límpida do seu reino de lavanda? Depois de muito pensar, decidiu-se por um peixe. Na loja de aquários o vendedor estranhou o fato dela não querer levar pedras nem ornamentos, o que limitava sua compra a um pequeno tanque de vidro sem graça. Depois de muito escolher, pensou ter encontrado o peixe perfeito para avivar seu existir, mas quando lhe explicaram da necessidade do animal comer e de ter o tanque semanalmente limpo por conta das fezes e outros poluentes naturais, desistiu da compra e passou para a loja seguinte em busca de solução mais viável. Horas depois em casa, Ana sorria contemplando seu aquário com dois peixes de plástico azul boiando: felicidade à 4,95.

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3 comentários sobre “Ana sujava o mundo

  1. Ler os contos da Izabela sempre me conduz a tentar decifrar a história de vida dos personagens. O que terá acontecido com a alva Ana a se entocar em sua redoma, como os peixes de plástico de 4,95? O que maculou tanto essa branca criatura? O que levou esse lado branco do Yin a se desestabilizar frente ao dorso negro e suado do Yang que estava na rua? Que fantasias sexuais ocorreram na mente desta mulher na noite que se seguiu?

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